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Ambulante testemunha da prisão de Geddel conta o que viu em ação

Os olhos de Marcos de Jesus Santos, 36 anos, viram o que muitas pessoas tiveram curiosidade de ver. Enquanto ia trabalhar na manhã desta sexta-feira (8), o vendedor ambulante, virou testemunha da prisão do ex-ministro Geddel Vieira Lima, realizada pela Polícia Federal, no bairro do Chame-Chame, em Salvador, onde o político mora.

 

Marcos foi uma das duas pessoas, escolhidas de forma aleatória pela PF, e levadas como testemunhas do cumprimento dos mandados de prisão, busca e apreensão dos federais no 9º andar do edifício de luxo Pedra do Valle, na Rua Plínio Moscoso, onde Geddel cumpria prisão domiciliar. A outra testemunha foi um porteiro do prédio que não teve o nome revelado.

 

“Foi um susto e tanto. Na hora pensei: ‘trabalho duro para sustentar minha família, levo uma vida honesta e o que eles querem comigo’. Mas aí me perguntaram se eu trabalhava na região e disse que sim e me pediram para simplesmente acompanhá-los, que eu seria apenas uma testemunha. Não tive opção”, contou Marcos. O ambulante tem uma banca com bebidas (cerveja, refrigerante, água e suco) em frente ao Pedra do Valle.

 

Ele ainda começava a dar os primeiros passos para subir a ladeira, que é paralela à Avenida Centenário, quando foi cercado pelos federais a 35 metros de seu ponto de trabalho. Até às 6h de hoje, Marcos estava longe de qualquer popularidade. Mas, depois entrou no prédio junto com os federais virou alvo dos jornalistas que faziam campana em frente à residência do ex-ministro. Todos queriam saber o que ele viu lá dentro.

 

Ao Correio da Bahia, ele relatou que foi conduzido em silêncio absoluto, quebrado somente quando os policiais se identificaram na portaria do condomínio e apresentaram os mandados da Justiça. Na hora, um dos porteiros também foi levado como a segunda testemunha.


Apartamento
Marcos disse que quem os recebeu no 9º andar – o edifício é um por pavimento – foi o próprio Geddel Vieira Lima. “Ele não esperava. Dava pra ver na cara dele que não esperava uma visita naquela hora”, conta. Entre as pessoas que estavam no imóvel, a mãe de Geddel.

 

Segundo o vendedor ambulante, os federais vasculharam tudo. “Geddel e outras pessoas da casa ficavam afastadas enquanto os policiais mexiam em tudo. Entraram na sala, cozinha, quartos, banheiros. Tudo foi revirado. Levaram muitos documentos e um hd”, disse Marcos. A revista durou pouco mais de uma hora e meia.

 

Medo
Por volta das 7h10, uma viatura da PF deixou o edifício. Vestindo uma camisa branca e escondendo o rosto com uma das mãos, o ex-ministro estava no banco detrás do carro e era levado rumo ao aeroporto de Salvador, onde, de lá embarcou para Brasília.

 

Quinze minutos depois, outra viatura deixou o prédio. “Os policiais saíram com um malote”, contou Marcos que também deixou o local. Ele disse que foi proibido pelos federais de dar detalhes sobre o que aconteceu no apartamento. “Sinto muito, não posso falar mais nada. Estou proibido de falar sobre o assunto”, declarou.

 

Marcos disse que seus olhos e ouvidos testemunharam muito além do que relatou ao Correio, mas foi advertido pelos federais. “Eles falaram que poderia sofrer consequências se vazar algo importante. Um deles me disse: ‘Se sair alguma coisa daqui, saberemos que foi você ou o porteiro’. Por isso, mais do que isso, não posso falar”, contou Marcos, que a todo momento era abordado por jornalistas que faziam plantão na porta do edifício.

 

De acordo com a assessoria da Polícia Federal, a arrolação do vendedor ambulante e do porteiro como testemunhas está prevista no artigo 245 do Código de Processo Penal (CPP). O item dispõe sobre os procedimentos obrigatórios para as buscas domiciliares. O parágrafo sétimo do artigo prevê que "Finda a diligência, os executores lavrarão auto circunstanciado, assinando-o com duas testemunhas presenciais". O artigo 202 do CPP ainda dispõe que "toda pessoa poderá ser testemunha".


Rotina
A prisão do ex-ministro movimentou a Rua Plínio Moscoso. Quem passava em frente ao edifício Pedra do Valle queria saber o que estava acontecendo, devido à presença dos policiais federais e jornalistas. “É dose. Queria um toquinho daquele dinheiro para abrir um negócio ”, comentou a doméstica Madalena Dias, 49, fazendo referência as mais de dez caixas e malas com R$ 51 milhões dinheiro em espécie flagradas pela PF na terça-feira (5) em um imóvel que, segundo a PF, seria usado pelo ex-ministro para esconder as notas no bairro da Graça.

 

Buscas na casa da mãe
O juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara em Brasília, autorizou a busca e apreensão em três endereços na manhã desta sexta-feira (8), entre eles a casa da mãe do ex-ministro Geddel Vieira Lima. Ao pedir a busca, a Polícia Federal alegou que "há grande probabilidade" de que nos endereços existam documentos que comprovem a prática de crime e "inclusive, mais dinheiro de origem ilícita".

 

A PF foi nesta manhã (8) na casa de Geddel, de Gustavo Ferraz - ambos presos preventivamente - e da mãe do ex-ministro, que mora no mesmo prédio do filho em Salvador (BA). Por essa razão, a polícia considerou que "não se descarta que o mesmo possa utilizar a residência da mãe para ocultar documentos e valores decorrentes e sua empreitada criminosa, retirando-os do seu apartamento, mas se encontrando em local de pronto acesso".


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