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Um mês após acidente com mortes, famílias de vítimas vivem luto e pedem justiça

Com mais de 1.200 km² de extensão, a maior baía do país e a segunda mais abrangente do mundo, a Baía de Todos-os-Santos, foi lugar de uma tragédia sem registros precedentes na sua história. Há um mês, uma das lanchas que fazia a travessia entre os municípios de Vera Cruz e Salvador virou com 120 pessoas. Dezenove morreram.

 

Às margens da praia de Mar Grande, de onde partiu a embarcação, a população ribeirinha à baía ainda caminha em silêncio. O luto, que por decisão da prefeitura local teve duração de três dias, não tem fim para quem perdeu familiares e amigos. “Por aqui, parece que tudo perdeu a cor. Sinto uma dor que só aumenta”.

 

A declaração de voz embargada partiu de Norma Chaves de Medeiros, de 65 anos. Ela perdeu no naufrágio a neta de 27 anos, Taís Medeiros Ramos de Sales, e o bisneto Lucas Medeiros Leão, de apenas dois anos. “Eles eram parte da gente”, resume uma saudade sem fim. Filha de dona Norma, Nívea Suely de Medeiros, de 46 anos, que é mãe e avó das vítimas, parece voltar ao cenário da tragédia quando conta sobre o pânico que marca o dia 24 de agosto de 2017.

 

Ela diz que a filha saiu cedo de casa para ir ao médico na capital baiana. Às 5h30, se despediu com o pequeno no colo, com a expectativa de fazer a travessia e ainda voltar a tempo de trabalhar. Taís atuava no setor de compras do Serviço Social do Comércio (Sesc).


“Por volta de umas 8h30, 8h40, minha mãe chegou lá minha casa e perguntou: ‘Taís foi para Salvador? ’. Eu disse que foi. Ela disse: ‘Minha filha, a lancha de 6h30 virou. Taís foi de lancha? ’. Eu disse que foi. Aí, já foi o desespero. Liga para clínica, não chegou na clínica. Eu disse: ‘Meu Deus, uma hora dessa não chegou na clínica? ’ Mais tarde, umas 9h, já veio que acharam o corpo do meu netinho. O corpo dela só foi localizado no final da tarde, umas 16h30. Foi um momento de muita angústia, muita dor”.


Após uma vida de convívio diário, Nívea encontra conforto nas lembranças. As roupas e brinquedos do pequeno Lucas ainda seguem espalhados pelas casas da avó e da bisa. “ [Taís] não era só uma filha. Era uma amiga, uma companheira, uma confidente, uma pessoa do bem. Teve seu filhinho, que sempre convivia com a gente. Muitas vezes dormia na minha casa. Ficava comigo. Uma criança muito inteligente, muito sabidinho, sempre muito amoroso”.


Mãe e filho mortos eram moradores de Misericórdia, comunidade do município de Itaparica, que é vizinho a Vera Cruz. Outras duas pessoas da mesma localidade também foram vítimas do naufrágio. Uma delas foi Edileuza Reis Conceição, 53 anos. O tio dela, Eliesér dos Reis Santos, de 66 anos, não consegue conter as lágrimas quando lembra que falou com a sobrinha pouco antes do acidente.

 

“Fui eu que abri o portão. Ela me deu a benção, abri o portão e ela foi. Ela não me falou que ia pela lancha. Se ela me fala que ia pela lancha, eu alertava ela que esse tempo não dá para andar pela lancha. Só mesmo pelo ferry boat”.


Edileuza seguia para Salvador para fazer um tratamento de fisioterapia no joelho. Seu Eliesér explica que a sobrinha preferia fazer a travessia com a lancha em vez de ferry, porque o terminal de desembarque fica mais próximo do ponto de ônibus que tem veículos para Ondina, bairro onde fica a clínica.


“Ali fica mais próximo e no ferry boat anda mais. Mesmo assim, eu preferia que ela andasse mais do que perder a vida. Ela era uma menina alegre, brincava com todo mundo. É muita saudade”. Amigo do eletricista Salvador Souza Santos, de 68 anos, vítima que teve o corpo encontrado três dias após o naufrágio, o caseiro João Francisco, de 82 anos, diz que nunca tinha presenciado tanta tristeza.


“Todo mundo estava ‘zonzo’ procurando os parentes. Nunca tinha acontecido uma coisa dessa. Moro aqui há 50 anos e nunca tinha acontecido. Ficou um ar de tristeza. A gente não perdeu parente, mas a gente se emociona”.


Justiça
Avó de Taís e bisavó de Lucas, Dona Norma Medeiros fala de uma profunda saudade, mas não esconde a indignação. “Nós perdemos duas pessoas. Perdemos sem explicação. Sabemos sim de muito descaso, porque uma lancha muito antiga em tempo ruim e eles colocaram para rodar”.


Uma semana antes da tragédia, a aposentada diz que teve problemas na mesma embarcação. “Quinze dias antes, eu fui em Salvador. Peguei justamente a lancha que virou uma semana depois. Quase virava também comigo. Entrou água. A situação era horrível”. Para além das condições da lancha, Nívea Medeiros, que perdeu filha e neto, diz que a empresa responsável pela embarcação não tem prestado auxílio.

“Assistência nenhuma. Inclusive, tenho uma filha de 13 anos que está em tratamento psicológico. Ela ficou muito abalada. Ela foi quem mais precisou de ajuda e, então, está tendo esse acompanhamento. Nós mesmo procuramos esse auxílio para ela”. Moradora de Itaparica, a dona Robelice da Hora Fernandes de Assis, de 50 anos, diz que a filha se livrou da tragédia graças a um atraso.

Mesmo que aliviada, também se indignada com a situação. “Eu chorei bastante, porque ela [filha] ligou para mim chorando: ‘Minha mãe, era a lancha que eu ia pegar’. A gente, na realidade, ainda não acredita. A gente vê que vidas foram perdidas e nada foi feito”.


CL se defende
Ao G1, a empresa responsável pela lancha, CL Transporte, disse que um mês após o acidente continua prestando atendimento social para as vítimas e familiares. Em nota, a empresa contou que “desde o momento do ocorrido se responsabilizou pelos serviços funerários – seja diretamente ou por reembolso posterior de valores –, deu auxílio logístico para as equipes de busca do Corpo de Bombeiros e colocou à disposição uma equipe de assistentes sociais e psicólogos para atendimento em Mar Grande”.


A CL Transporte ainda disse que já realizou mais de 80 atendimentos, o que atingiu cerca de 50 sobreviventes do acidente, envolvendo desde acompanhamento médico, consultas psicológicas, visitas domiciliares, distribuição de medicamentos, encaminhamento para unidades de saúdes e clínicas, até o cadastramento de necessidades específicas de cada caso, seja a respeito de objetos perdidos ou de questões de natureza pessoal.


A empresa também afirma que mantém dois profissionais fixos na ilha para atendimento e ainda um telefone - (71) 9 9935-2659 -, à disposição da comunidade 24h por dia. Sobre a situação da embarcação Cavalo Marinho I, que naufragou, a CL reafirmou que ela e as demais lanchas da empresa seguem as normas estipuladas pela Capitania dos Portos.

 

Por isso, acrescenta que vem sendo sempre aprovada nas vistorias e inspeções rotineiras sem que qualquer item de segurança ou procedimento técnico tenha sido questionado pelos órgãos competentes. A empresa acrescentou que aguarda o encerramento dos processos de investigação iniciados após o acidente e reafirma que irá cumprir todas as obrigações determinadas.


Bloqueio de bens
No dia 20 de setembro, a Justiça acatou pedido feito pela Defensoria Pública da Bahia (DPE-BA) e determinou, por meio de liminar, o bloqueio dos bens da CL Transporte. O órgão pediu o bloqueio de bens da empresa e de um sócio dela, a fim de garantir a disponibilidade financeira para pagamento de futuras indenizações às vítimas.


A liminar foi assinada pelo juiz Maurício Lima de Oliveira, da 16ª Vara de Relações de Consumo. O magistrado acolheu as argumentações das defensoras públicas Eliana Cavalcante Reis e Mônica Christianne Soares, e ainda bloqueou 5% da renda líquida faturada mensalmente pela CL com a venda de bilhetes de transporte marítimo de passageiros de Salvador para Mar Grande e vice-versa.

 

A renda bloqueada será depositada em uma conta judicial, a ser aberta especialmente para o fim de constituir capital para suportar as despesas com o pagamento de indenizações. Sobre a determinação, a CL disse que não comenta decisão judicial.


Investigações
As causas do naufrágio devem ser divulgadas após a conclusão do inquérito aberto pela Capitania dos Portos em um prazo de 90 dias, contados desde o acidente. A Polícia Civil também apura o caso. As investigações ainda não foram concluídas.


A lancha Cavalo Marinho I virou por volta das 6h30 do dia 24 de agosto, cerca de 10 minutos após deixar o Terminal Marítimo de Mar Grande, na ilha. A embarcação tinha como destino Salvador e estava a aproximadamente 200 metros da costa quando o acidente aconteceu. A viagem dura cerca de 45 minutos. A lancha levava 120 pessoas, eram 116 passageiros e 4 tripulantes.


As 19 pessoas que morreram no acidente são 13 mulheres, 3 homens e 3 crianças. Os corpos foram periciados no Departamento de Perícia Técnica (DPT) de Salvador e na unidade de Santo Antônio de Jesus.


Somente uma adolescente que desapareceu depois do acidente ainda não foi encontrada. As buscas da Marinha pela menina de 12 anos foram suspensas por tempo indeterminado, em 12 de setembro, 19 dias após o ocorrido. O órgão decidiu suspender a operação até que haja indícios de localização da vítima.


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