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Família Vieira Lima contabiliza prejuízos com índios em fazenda no sudoeste baiano

Funcionários da família do ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) começam nesta quarta-feira (11) a contabilizar o prejuízo da ocupação de 14 dias na Fazenda Esmeralda, em Itapetinga, no Sudoeste baiano. A propriedade tinha sido invadida por índios da etnia Pataxó Hã-hã-hãe que afirmam que a terra é sagrada.

 

O imóvel de 643 hectares faz parte de um conjunto de doze fazendas que somam mais de 9 mil hectares e estão avaliadas em cerca de R$ 67 milhões. O primeiro título da propriedade é de 1937, época em que o Governo da Bahia fez doações de diversos títulos de terra na região. Os índios ocuparam a fazenda dizendo que no local há antigos cemitérios indígenas.


“O gerente da fazenda e outros funcionários vão iniciar a contagem do gado e dos prejuízos nesta quarta-feira. Soubemos que houve alguns objetos que foram furtados, gados abatidos, mas só podemos afirmar com mais propriedade depois de uma contagem mais rigorosa”, disse o advogado Franklin Ferraz. O levantamento na propriedade acontece um dia após a desocupação.


O advogado foi o autor da ação de reintegração de posse da Fazenda Esmeralda, ocupada no dia 23 de setembro pelos índios. Os manifestantes deixaram a propriedade após oficiais de justiça irem até a fazenda com mandado de reintegração, acompanhados de Policiais Militares. A desocupação nesta terça (10) foi pacífica, segundo informou o delegado Antonio Roberto Júnior, de Itapetinga.

 

Outras duas propriedades que também estavam sob o poder dos indígenas próximo a fazenda de Geddel, uma em Itaju do Colônia e outra em Pau Brasil, ambas no Sul da Bahia, também foram desocupadas na sexta-feira passada, logo após a desocupação da Esmeralda.


“Não há mais nenhuma fazenda ocupada na região. Agora, vamos ficar atentos aos grupos que estavam cometendo crimes nas outras fazendas e buscar identificá-los”, afirmou o delegado Antonio Roberto Junior, que investiga também o furto de 25 cabeças de gado de uma propriedade da família Vieira Lima em Maiquinique, na região de Itapetinga.


Sem leite
Em Itaju do Colônia, a fazenda que estava em poder dos índios é a Santo Antonio, de propriedade de José Elias Júnior e com cerca de 800 hectares. Quando da invasão desta fazenda e de outras 25 propriedades, no dia 30 de setembro, os proprietários informaram que havia no local cerca de 400 cabeças de gado.

 

“Estou contando meu prejuízo ainda, mas só para ter uma ideia deixei de coletar mais de 100 litros de leite por dia”, disse o fazendeiro José Elias. Na região de Itapetinga, o litro de leite estava cotado a R$ 1,16 nesta terça-feira (10), segundo a Secretaria de Agricultura da Bahia (Seagri).

 

Impulsionadas pela ocupação à fazenda da família de Geddel Vieira Lima, as invasões que ocorreram nos dias seguintes levaram terror ao campo na região sudoeste da Bahia. Além de indígenas, grupos de sem terras também participavam das ações. Mais de 100 pessoas, entre as quais, segundo a polícia, havia criminosos, estavam nas ocupações.

 

Os grupos, em sua maioria, estavam armados e usando tocas brucutu, levaram objetos das fazendas, como TVs, rádios, celas, arreios, facas e facões, e fizeram de reféns os funcionários. Até comida uma das vítimas foi obrigada a fazer para o grupo de invasores. Eles bloquearam ainda a estrada com um caminhão quebrado para dificultar o acesso.

 

A maior parte das fazendas ocupadas foi em Itaju do Colônia (14 propriedades) e Itapetinga (onze). Houve uma ocupação em Potiraguá e outra em Pau Brasil. As propriedades passaram a ser desocupadas com uma ação conjunta das polícias Civil e Militar no dia 2 de outubro.

 

Durante a operação, em uma outra fazenda da família de Geddel, a Tabajara, em Potiraguá, um homem foi preso por porte ilegal de arma de fogo. Ele estava com uma espingarda escondido em um cômodo do imóvel. Na fazenda foram apreendidos uma espingarda sem cano, uma moto e dois veículos por irregularidades administrativas.

 

Declaração da Funai
Apesar da justificativa dos índios de afirmar que as ocupações se deram porque a área era sagrada, devido a suposta existência de cemitérios indígenas, a Funai emitiu uma declaração afirmando que na área não há demanda indígena por criação de reserva.

 

Na região, em território de Itaju do Colônia, existe a reserva indígena Caramuru-Catarina Paraguaçu, de 54 mil hectares. A área foi considerada de habitação tradicional indígena em 2012 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), numa ação que durou 30 anos, uma das mais longas do tribunal.

 

Foram índios dessa reserva que estavam nas ocupações. Eles querem a ampliação da área para mais cerca de 130 mil hectares, baseados na Lei Estadual nº 1916 de 1926, que destinou na época 50 léguas quadradas para a preservação de recursos florestais e para a proteção de índios Pataxó, Tupinambá e outros que lá fossem encontrados. A área total desse decreto nunca foi demarcada.

 

Ao avaliar as ocupações na região, o presidente do conselho diretor da Associação Nacional de Ação Indigenista (Anai), antropólogo José Augusto Sampaio, disse que a ocupação indígena na fazenda de Geddel “parece mais um protesto, devido ao momento político”. Ex-ministro da Secretaria de Governo e Integração Nacional, Geddel está preso preventivamente desde o dia 8 de setembro no Presídio da Papuda, em Brasília.

 

A prisão ocorreu depois de a Polícia Federal encontrar digitais do político em cédulas de dinheiro encontradas em um apartamento ligado a ele, onde malas guardavam mais de R$ 51 milhões. Geddel é suspeito de desviar dinheiro da Caixa Econômica Federal na época em que foi vice-presidente de pessoa jurídica do banco, entre 2011 e 2013. A defesa dele não respondeu ao pedido de nota comentando o caso.


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