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“Tive muita vontade de tirar minha vida”, diz vítima de estupro do Caso New Hit

O estupro coletivo de duas adolescentes de 16 anos dentro de um ônibus por integrantes da agora extinta banda de pagode New Hit chocou o Brasil. O crime aconteceu em 26 de agosto de 2012, em Rui Barbosa, no Centro-Norte da Bahia. Cinco anos depois, a Justiça baiana condenou oito dos suspeitos a dez anos e oito meses de prisão pelo crime.

 

Eles foram condenados no último mês de agosto a pouco mais de 10 anos de prisão pelo estupro de duas adolescentes, no ano de 2012. Agora, dois dias depois de ver todos os condenados finalmente atrás das grades, uma das vítimas, hoje com 21 anos, quebra o silêncio segundo informações do Correio da Bahia.

 

Para a jovem, que não terá o nome revelado, foram cinco anos de dor e humilhação, mas a condenação dos oito integrantes da banda vem como um alívio por ver a justiça sendo feita. A garota, que quer estudar Direito para defender outras vítimas de violência, fala, num depoimento o quanto foi julgada e tratada como culpada por outras pessoas - inclusive por outras mulheres. Depois de ter morado em dois estados, ela diz que se sente, hoje, vitoriosa.

 

Leia o depoimento na íntegra:

 

"É um alívio, tanto para mim quanto para minha amiga, depois de cinco anos ver a justiça sendo feita. Até porque era um processo que parecia ser impossível e, agora, está tendo um basta. Sempre acompanhei o caso, através de minha advogada. Mas fui pega de surpresa pela notícia da prisão, soube pela televisão. Foram cinco anos até que chegasse a um desfecho, mas ainda convivo com as humilhações, pirraças e piadinhas. Ainda sou apontada como aquela menina do caso do New Hit. Os mais jovens ainda fazem muitas piadinhas. Mas, graças a Deus, hoje eu aprendi a lidar melhor com isso, a ignorar mais. Mas isso ainda machuca muito. As pessoas não entendem que todas as vezes que fazem uma piadinha com isso, passa um filme na minha cabeça. Volto a lembrar de tudo o que aconteceu.

Qualquer caso de estupro me faz lembrar o que eu passei. É uma dor que machuca, que me faz mal. Na época, eu precisei tomar calmante, fui acompanhada por psicólogo e por psiquiatra durante dois anos. Tive esse acompanhamento tanto nos outros dois estados em que morei, através do programa de proteção, quanto aqui na Bahia, quando eu voltei. Foi muito duro. Tive que ir embora só com minha mãe, deixando tudo pra trás. Ninguém tem noção do que a gente passou de verdade. Não é fácil sair correndo por causa de ameaças, deixando na sua cidade a sua família e os seus amigos, para ir morar em um lugar em que você não conhece ninguém. Depois do que aconteceu, passei a não confiar em mais ninguém, achava que a qualquer momento alguém ia fazer algo comigo. Hoje, eu sou uma pessoa que não tenho amigos porque não consigo confiar nas pessoas. Acho que, a qualquer momento, vão fazer algo comigo.

 

Críticas
A gente era fã da banda como qualquer outra pessoa. Saímos da nossa cidade pra ir a Rui Barbosa ver a banda de perto, conhecer os músicos pessoalmente. Ainda tem quem nos julgue porque entramos em um ônibus cheio de homens, mas se a gente soubesse que ali tinham estupradores, a gente não tinha entrado. Eram lobos em pele de cordeiros. Com certeza não teríamos entrado se soubéssemos que ali tinham estupradores. Minha mãe também foi julgada demais na época, por ter deixado eu ir ver uma banda em outra cidade. Teve muitos comentários desse tipo, mas a culpa não foi dela. Ela sempre permitiu que eu viajasse, a mãe de minha amiga estava na festa com a gente. Não foi culpa de minha mãe. Poderia ter acontecido de uma mãe e uma filha terem entrado no ônibus e terem sido estupradas também.

 

Culpados
O problema não é a gente, são eles. Os culpados foram eles. Hoje, eu estou tranquila com essa resposta da justiça. Estamos vendo a justiça sendo feita para mostrar para todas aquelas pessoas que apontaram o dedo nas nossas caras que eles foram os culpados. O fato de eles estarem soltos antes deixava um clima de impunidade. Ainda tem gente que diz que a gente fez isso por dinheiro ou para aparecer. A gente não fez por dinheiro, tanto é que que a gente nunca quis entrar na Justiça por danos morais. Nunca foi por dinheiro, porque dinheiro nenhum paga o que a gente passou. A gente nunca ia se expor numa situação humilhante dessa. Ninguém vai querer se aparecer nessa humilhação. Não tem dinheiro que pague a humilhação que a gente viveu.

 

O que mais choca é ver a quantidade de mulheres que defendem eles. São pessoas que pensam que isso só acontece dentro de um ônibus, mas pode acontecer na rua, dentro de casa. Todo mundo está sujeito a isso. É triste ver tantas mulheres julgando a gente. Hoje, eu tenho contato com movimentos feministas como a Marcha das Vadias, com Sandra Munhoz. Sempre procuro saber dos casos de estupros. Me dói muito. Minha vontade é querer abraçar essas meninas, mostrar que elas não estão sozinhas. A sociedade culpa a gente. Gostaria de mostrar para elas que essa dor não vai passar, mas com o tempo vai cicatrizando. Mas é uma ferida que parece que não vai fechar nunca por completo.

 

Apoio
Sempre tive o apoio da minha família, ninguém me julgou. Ao contrário, me abraçou muito. Tanto que agora, quando souberam que eles foram presos, minhas tias vieram aqui, me abraçaram, me deram parabéns, disseram que essa era uma vitória nossa. Hoje, eu não trabalho, mas não é porque eu quero. É falta de oportunidade. Vivo distribuindo currículo, mas não me dão oportunidade e eu sei que é por causa disso. Quem é que vai querer colocar a menina que foi estuprada em sua loja para trabalhar? Hoje, eu quero concluir o Ensino Médio e penso em fazer faculdade de Direito para defender a tantas mulheres que são vítimas tanto quanto eu. Na época do estupro, eu e minha amiga estudávamos no mesmo colégio. Mas, não concluímos os estudos porque a gente não conseguiu voltar a estudar por causa das piadinhas.

 

Na época do estupro, eu tinha 16 anos, hoje tenho 21. Tenho namorado e ele me apoia muito. Ele sabe o que aconteceu comigo, mas minha força maior, depois de Deus, é ele, porque ele me acha uma vitoriosa. Ele está sempre comigo nesses dias de processo, me dando forças, me apoiando e me tranquilizando.

 

Ameaças
O motivo maior de termos entrado no programa de proteção às testemunhas foi as ameaças de fãs, principalmente menores de idade. Era por telefone, por rede social. Eram tantas que tive que desativar o Facebook. Há quatro meses, sou evangélica. E, coincidentemente, uma semana depois que eu entrei para a igreja foi quando o processo começou a ser movimentado de novo. Antes da igreja, era aquela fraqueza, um desespero na minha vida. Dava vontade de sumir. Demorou, foram cinco anos de humilhação, de espera, de sofrimento. Mas as coisas acontecem no tempo de Deus, quando Deus está na frente. Hoje eu digo que, se eu tô viva, é graças ao joelho no chão de minha vó orando e as orações de minha mãe.

 

Tive muita vontade de tirar minha vida. Tomei tarja preta nos momentos de ansiedade, tomei tarja preta pra dormir porque as noites eram horríveis. Mesmo antes de entrar para a igreja, eu sempre acreditei em Deus. Como diz a música: 'Mesmo sem entender, eu confio em ti'. A gente não consegue entender porque está passando por aquilo naquele momento. Hoje, entendo que os planos de Deus na minha vida são maiores do que eu imaginava. Mesmo morando em outro estado, eu e minha amiga ainda mantemos contato. A gente conversa muito sobre tudo. Como ela mora fora, ela não tem tantas informações do processo e eu passo tudo para ela. A gente sempre fala que juntas somos fortes. Só uma entende a outra e consegue dar o apoio que a outra precisa. Só a gente pra se entender. Uma dá forças pra outra. Somos amigas de infância.

 

Recursos
Eu sei que eles vão recorrer, até porque passaram cinco anos soltos, aproveitando as brechas da Justiça. Recorrer vão, porque podem. Esperei cinco anos por isso, agora que foram condenados, será que é possível um juiz ou desembargador soltá-los? É um tapa na cara da sociedade, esses monstros ficarem soltos. Espero que a Justiça continue sendo feita da forma que está. Não é possível que eles tenham mais uma brecha.

 

Desde que houve o estupro, nunca estive cara a cara com eles. Nem na audiência nem no dia do julgamento. Não quis estar de frente com eles. Não por medo, não por nada, mas por não querer olhar na cara mesmo, acho que é muito humilhante".


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