Antes do tradicional cortejo na sexta-feira (15), em Cachoeira, no Recôncavo baiano, a Irmandade da Boa Morte recebeu o título de Promotora da Igualdade Racial, concedido pelo governo federal. A tradição afro-católica, conduzida exclusivamente por mulheres negras – hoje são 48 –, foi criada no século XVII em Salvador e transferida para Cachoeira em meio a conflitos que marcaram a capital baiana.
Segundo a provedora da festa deste ano, Irmã Neci Santos Leite, há 17 anos na Irmandade, o principal papel da entidade religiosa foi garantir uma partida digna às pessoas vulneráveis e fazer ressoar a mensagem de liberdade.
“É o nosso reconhecimento de uma alforria. Isso foi uma busca, uma luta nossa ao longo dos séculos e começou com nossos ancestrais escravizados. Pessoas escravizadas não tinham direito a uma morte digna, eram jogadas em uma vala, de qualquer jeito, para os bichos destruírem. Então, nossa busca foi sempre por dignidade e por liberdade”, contou Irmã Neci, que ocupa com outras integrantes, anualmente, os cargos de provedora, procuradora, tesoureira e escrivã, responsáveis pela organização dos rituais e atividades culturais.
Também em Cachoeira foi realizada a entrega do Prêmio do Ministério da Cultura para dona Dalva, sambista tradicional da cidade. Na ocasião, foram anunciadas ainda as obras pelo PAC Cidades para a casa de Samba da Dona Dalva e para o Terreiro Ilê Axé Icimimó. Dona Dalva também foi apresentada como a provedora da Festa da Boa Morte de 2026. O terreiro ganhou também uma placa de tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Na Igreja da Matriz de Cachoeira, autoridades participaram da missa solene. A primeira-dama do Brasil, Janja da Silva, e as ministras Margareth Menezes (Cultura) e Anielle Franco (Igualdade Racial) foram homenageadas pela Irmandade da Boa Morte pela contribuição com políticas de valorização da cultura.
“A Festa da Boa Morte tem uma importância muito grande por tudo que já entregou para a sociedade brasileira, resgatando a história, em outros tempos comprando a liberdade de pessoas escravizadas. É uma história muito comovente. É uma comunidade de mulheres, um movimento de mulheres defendendo a liberdade, defendendo os direitos humanos”, disse a ministra da Cultura, Margareth Menezes, presente na cerimônia. Correio da Bahia

















