A despeito da estratégia dos grupos governistas e da oposição, cada um ao seu modo, de tentar tratar como irrelevante o anúncio do ingresso de José Carlos Aleluia no Novo, com seu subsequente plano de concorrer ao governo, ambos os lados passaram a avaliar o movimento do ex-deputado com bastante atenção. Primeiro, porque trata-se de personagem respeitado e testado do campo político que não há como desprezar. Extremamente experiente nas artes de negociação e de gestão, inteligente e preparado intelectualmente, Aleluia já começa desarrumando um cenário que parecia previamente previsto, no qual apenas duas forças disputariam o poder em 2026.
E ainda que não seja possível prever desde já o conteúdo específico que imprimirá a candidatura nem o escopo que conquistará no curso da campanha e em meio às situações que o futuro a reserva, especialmente a partir do ano que vem, seu ingresso na cena sucessória tem como consequência imediata ampliar e qualificar o debate, ao aumentar o raio dos questionamentos ao grupo que comanda a Bahia há quase 20 anos sob a ênfase da preocupação com o desenvolvimento econômico do Estado – um enigma persistente na história estadual e por isso fundamental, mas que parece, no entanto, ter sucumbido à emergência de crises como as da Segurança e da Saúde.
Além disso, não se pode descartar que seu nome venha a ser reforçado pelo governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que permanece como uma aposta para a sucessão presidencial do Novo enquanto os demais candidatos não resolvem a confusão que armam os filhos de Jair Bolsonaro contra a unificação das forças de centro, direita e ultradireita para a sucessão de Lula, meta que subordinaram ao plano exclusivo de anistiar o pai. Mas se agregava uma nova cabeça no momento da oposição baiana, reforçando o campo de combate ao governo no qual jogou sozinho até agora ACM Neto, Aleluia não deixa de representar um desafio para o candidato a governador do União Brasil.
Afinal, dada a trajetória liberal, o perfil e o discurso, pode não ser difícil capturar o eleitorado conservador reunido hoje sob a designação do bolsonarismo, devido à ausência de um nome que representa o segmento na Bahia, principalmente depois da reaproximação antecipada entre Neto e João Roma, com o seu PL, partido do ex-presidente da República. Candidato virtual ao Senado na chapa cuja composição o ex-prefeito de Salvador começa a desenhar, Roma, ao romper com Neto em 2021 para se tornar ministro da Cidadania de Bolsonaro e, na sequência, lançar sua candidatura ao governo, praticamente selou o insucesso do ex-aliado nas urnas de 2022.
Não por acaso, muita gente já começa a antever hoje no candidato voluntário a governador do Novo o mesmo potencial de fragilização da estratégia netista que o presidente estadual do PL, naquele caso deliberadamente, representou na eleição estadual. Franco acesso ao ex-presidente, que não se sabe se já não será preso a partir do próximo mês em decorrência de sua aspiração golpista, o candidato do Novo possui, embora não se possa dizer que o recurso é essencial para um bom posicionamento seu no eleitorado bolsonarista. Claro que, como pontuou seu filho, o vereador Alexandre Aleluia (PL), o caminho mais fácil seria se ele obtivesse o apoio do PL.
*Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.

















