Questionada sobre por que ainda é tão difícil que essas mulheres vítimas de estupro sejam ouvidas, Marisa Sanematsu, diretora de conteúdo do Instituto Patrícia Galvão, explica que há um tabu em torno do abuso sexual de crianças e o estigma e culpabilização que recaem sobre as vítimas.
“A maioria dos estupros ocorre dentro de casa e é cometido por um parente ou conhecido. Muitas vezes, a família não quer enxergar e muito menos denunciar o agressor, pois isso poderia desestruturar a casa. Assim, se a menina rompe o silêncio, com frequência dizem que ela está inventando, enquanto o agressor nega ou culpa a criança.”
Segundo Marisa, o abusador se aproveita da proximidade com a vítima e da confiança da família para manter o abuso em segredo.
“São vítimas mais fáceis de atacar. O abusador cria momentos a sós com a criança e se aproveita da vulnerabilidade dela, que muitas vezes não entende o que está acontecendo. A menina se torna refém do agressor, pelo afeto, sensação de cumplicidade ou ameaças a ela ou a pessoas de quem gosta.”
Para a especialista, os abusos causam trauma, o que pode causar apagões de memória, e muitos ocorrem quando a vítima ainda é muito pequena.
“Sem orientação ou informação, a vítima não sexualiza o que ocorreu. Algumas vítimas relatam que, já adultas, lembranças reprimidas retornam, causando sofrimento que precisa ser tratado em terapia. São feridas que resistem ao tempo porque não foram tratadas adequadamente.”
A pesquisa aponta que 96% dos entrevistados disseram que meninas de até 13 anos não têm preparo físico e emocional para serem mães e ainda e ouviu ainda a percepção das entrevistadas sobre o procedimento de aborto legal: 7 em cada 10 brasileiras gostariam de ter a opção de interromper legalmente uma gestação decorrente de estupro.
Ainda de acordo com o levantamento, quase metade da população (47%) conhece uma mulher que já fez um aborto e, desses casos, 71% foram realizados de forma clandestina.
O estudo também aponta desconhecimento sobre a legislação: apenas 43% sabem que o aborto é permitido por lei em casos de estupro, estupro de vulnerável, risco de vida para a gestante e malformação fetal.
No caso de violência sexual, só quatro em cada 10 pessoas sabem que não é necessário apresentar boletim de ocorrência para ter acesso ao procedimento. Para oito em cada 10 entrevistados, faltam informações claras sobre o tema. G1