Foto: Ladário Brites

A menos de um mês para o Natal, o artista plástico Ladário Brites transformou a sala de casa, em Salvador, em um presépio. Mas, diferentemente das montagens tradicionais, o presépio do baiano é ambientado no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, onde mais de 100 pessoas foram mortas em uma operação policial em outubro deste ano. Os personagens da obra são policiais, suspeitos e moradores da comunidade. Maria, José, Jesus e os três Reis Magos aparecem no meio do fogo cruzado, em frente a uma casa com marcas de tiros.

“O nascimento do menino Jesus acontece na favela, bem no meio do fogo cruzado entre a polícia e os criminosos. Isso representa os inocentes que moram na comunidade e são obrigados a conviver assustados e com medo da violência”, explicou o artista, que é cristão e que já morou no Complexo da Penha. Uma das figuras mais inusitadas da obra é o rapper Oruam, que aparece do lado esquerdo do presépio, em cima de um palco. O artista carioca criticou a operação policial e escreveu uma música sobre as mortes.

A música integra a composição sonora do presépio, que também reproduz os barulhos dos tiros. “Quero que as pessoas reflitam sobre a violência, sobre essa operação que, para mim, não teve sucesso, foi um desastre. Uma operação bem programada é uma operação que prende quem tem que responder por seus crimes, não que mata tanta gente como matou”.

Detalhista, Ladário incorporou vielas, escadas, luzes de pisca-pisca e até gatos e cachorros nas “ruas do presépio”. Na montagem, os policiais vestem uma farda preta, enquanto os suspeitos estão sem camisa e usam cabelos coloridos. Todos carregam metralhadoras. Do lado direito, um grupo de moradores segura cartazes em um protesto contra a violência na comunidade: “Chega de chacinas! Paz no Complexo da Penha”, dizem os textos. G1