A alta carga tributária e a inflação persistente têm reduzido o poder de compra e tornado mais difícil manter o padrão de vida da classe média no Brasil.
Esse cenário ocorre mesmo com a melhora da renda da população e, de acordo com economistas e especialistas em tributação ouvidos pelo g1, pode ser explicado por diversos fatores.
Entre eles:
- A composição da renda dessas famílias, que é principalmente composta por rendimentos tributáveis;
- A defasagem da tabela do Imposto de Renda;
- A diferença no tratamento tributário entre pessoas com rendas semelhantes; e
- O alto percentual da renda destinado ao consumo.
Segundo os especialistas, embora a reforma tributária trate alguns desses pontos, uma solução definitiva ainda está longe de acontecer.
Isso porque, além da lentidão na tramitação do tema no Congresso — e da possível paralisação em 2026, ano eleitoral no país — o tema ainda enfrenta forte resistência política.
Uma das explicações para esse cenário, segundo especialistas ouvidos pelo g1, está na forma como a renda dessas famílias é composta.
Isso porque ao contrário das classes mais altas — que têm boa parte da renda proveniente de ganhos de capital, geralmente isentos de impostos —, os rendimentos da classe média são majoritariamente tributáveis.
Um estudo recente realizado pelo Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil (Sindifisco), por exemplo, indicou que enquanto quem recebe acima de 240 salários mínimos por mês (R$ 316 mil) tem 71% da renda declarada isenta de impostos, os trabalhadores que ganham entre 1 e 2 salários mínimos (de R$ 1.320 a R$ 2.640) têm isenção em apenas 10,7% da renda.
O levantamento foi feito com base nos dados do Imposto de Renda de 2024 (ano-calendário 2023), quando o salário mínimo era de R$ 1.320.
Outro reflexo da alta proporção de renda isenta nas classes mais altas aparece na alíquota efetiva. Segundo o estudo, trabalhadores que ganham a partir de R$ 6 mil por mês pagaram mais imposto de renda, proporcionalmente, do que os milionários.
Enquanto os mais ricos pagaram uma alíquota de 5,28% naquele ano, os trabalhadores da chamada “classe média alta” — com renda entre R$ 19.800 e R$ 26.400 mensais (15 a 20 salários mínimos) — pagaram 11,40%, mais que o dobro.
Segundo o técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Sergio Gobetti, além de o país registrar um aumento da concentração de renda nas classes mais altas, essa parcela da população paga uma carga tributária muito inferior à praticada em outros países.
“Mesmo com o crescimento da renda dos mais pobres, impulsionado por programas de transferência, o avanço na base da pirâmide não se compara ao que ocorreu no topo”, afirma.
“Esse crescimento anula os ganhos de distribuição na base. E quem está entre os extremos — a base e o topo — acabou sofrendo uma compressão na renda. A classe média foi achatada”, conclui. G1

















