Fotos Wuiga Rubini/GOVBA

A tradição do presente para Iemanjá no dia 2 de fevereiro remonta uma história de fé, praticada em Salvador há mais de 200 anos. O bairro do Rio Vermelho ganha as cores azul e branco durante o dia de celebração, e a responsabilidade de dar a principal oferenda à Mãe das Águas fica a cargo de pescadores e do povo de terreiro.

Em entrevista ao g1, Elias Conceição, do Terreiro Olufanjá, contou que a responsável por coordenar a preparação da oferenda neste ano foi Mãe Nicinha de Nanã, pela segunda vez. O presente escolhido ainda não foi revelado.

Ogan do terreiro — cargo que atribui aos homens responsabilidade sobre o funcionamento e relações sociais do espaço no dia a dia —, Conceição ressalta que essa preparação ultrapassa a construção material do objeto que será dado e inclui um grande esforço espiritual.

“A responsabilidade é gigantesca para quem é de Axé. Se lida com muita energia, muita gente, não é uma questão só de festa”.

Conforme o ogan, o trabalho inclui pedir a permissão para Oxalá, orixá regente do terreiro, assim como uma série de banhos e outros procedimentos de preparação espiritual. Com isso, a Casa também faz consultas aos orixás para proteger todas as pessoas que estarão na festa.

Em parceria com os pescadores, o povo de terreiro acompanha todo o ritual até a entrega do presente à divindade. “Há uma harmonia entre os terreiros e os pescadores. […] Nós vamos no barco com eles, ficamos no barracão, porque a entrega tem que ser feita na ritualística do terreiro”.

O apreço com a manutenção do aspecto religioso do dia 2 de fevereiro é uma parte importante para a manutenção da importância histórica da data. Ainda que o chamado “profano” também faça parte das manifestações ligadas à Festa de Iemanjá, Elias ressalta que é a religiosidade que mantém tudo unido.

Ressaltando a tradição histórica da prática pelo povo negro e de terreiro, que trouxe de países africanos o culto a Iemanjá, Elias aponta que a dimensão sagrada da festa é essencial.

“O que sustenta essa ação e tudo aquilo que ocorre em torno dessa festa é essa fé, é essa entrega, seriedade, a não quebra dos ritos. É de grande importância que não se mercantilize a festa de Iemanjá”.

Nesse sentido, a participação ativa da Colônia de Pescadores Z1 no processo é essencial. Ao lado do povo de terreiro, o grupo de trabalhadores mantém a tradição viva deste 1923 e tem papel direto na festa.

É nos barcos dos trabalhadores que a imagem de Iemanjá, a oferenda dos pescadores e do terreiro chegam à Mãe das Águas. O grupo começa a se organizar para a cerimônia no dia 1º de janeiro e, em parceria com os governos estadual e municipal, compra os materiais necessários para a celebração w garante a alimentação dos pescadores que participam do evento.

O presidente da colônia, Nilo Garrido, de 60 anos, ressalta que manter as homenagens à Orixá das Águas é, também, proteger o legado dos pescadores.

“A nossa intenção é sempre fazer nossa festa, de pescador. Sem pescador aqui do Rio vermelho, não tem a festa de Iemanjá. Até tem em outros lugares, mas não se compara a aqui”, defende.

Essa crença, que perpassa a resistência do povo de terreiro e o compromisso dos pescadores, se expande a grande parte das pessoas que acompanha a celebração. Reconhecida como Patrimônio Imaterial de Salvador, pela Fundação Gregório de Mattos (FGM), em 2020, a Festa de Iemanjá é, em essência, um dia para ofertar o que se tem de melhor. G1