Ligada à construção histórica e social da Bahia e demais estados do Nordeste, a celebração do São João é alvo constante de questionamentos que apontam a desvalorização das tradições. Em meio a isso, os cancelamentos de festejos juninos em cidades do interior baiano e a ausência de atrações como Flávio José nas grades anunciadas pelos municípios do estado tensionam a relação do povo com a festa.
Cidades como São Francisco do Conde, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), São Desidério, no oeste do estado, e Ilhéus, na região sul, anunciaram o cancelamento dos festejos juninos ou suspensão de contratos ainda no início de junho.
No caso de Ilhéus, onde a festa foi cancelada, a justificativa apresentada pela gestão municipal foi a impossibilidade de concluir a organização do evento diante dos “rigorosos trâmites burocráticos exigidos para garantir a segurança jurídica das contratações em tempo hábil”.
O comunicado se referia à Nota Técnica Conjunta nº 01/2026, assinada pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-BA) e pelo Tribunal de Contas dos Municípios (TCM-BA), que estabelece controles de gastos e outras diretrizes para orientar prefeituras baianas na contratação de artistas.
O documento foi base para as recomendações feitas pelo MP-BA às gestões municipais quanto ao cancelamento de contratos com supercachês e irregularidades nos processos. O cenário de cancelamentos de atrações e festejos se somou ao descontentamento de alguns artistas com a redução dos valores pagos.
A situação ganhou maior repercussão com Flávio José, que anunciou que não faria shows na Bahia após a recomendação do MP-BA quanto ao valor dos cachês dele para apresentações no estado. Para o artista, a situação foi mais uma forma de desvalorização de artistas ligados aos ritmos tradicionais do período junino, como o forró, o baião e o xaxado.
Ao g1, o professor doutor em História Social e pesquisador especializado em patrimônio cultural, José Roberto Severino, afirmou que uma gestão pública participativa e a estruturação de um plano de cultura são caminhos para a preservação do São João no estado. Para ele, a festa transcende os eventos e é necessário realizar a proteção do patrimônio imaterial, que é parte do período junino.
“A patrimonialização cria o que a gente chama de salvaguarda de uma determinada manifestação, portanto ela não pode mais ser descaracterizada. Esse é o desafio”, afirma.
Severino avalia que, ao longo dos últimos anos, os festejos juninos têm sido instrumentalizados arbitrariamente nas cidades baianas, o que dificulta a realização de processos que mantenham as características tradicionais da festa.
“Acho que o que está em questão com relação ao São João é que […] a gente tem uma orientação do Plano Nacional de Cultura de que os municípios tenham planos de cultura e que, portanto, os festejos ligados à área — e às vezes o São João é o único festejo de uma cidade — não sejam feitos de maneira que venham a se tornar apenas um evento”.
A introdução das atividades tradicionais da época, como as quadrilhas juninas em escolas e a valorização de sanfoneiros e bandas de pífano durante as festas de São João, pode fazer parte de políticas públicas.
“A festa de São João poderia ter uma relação maior com a formação de pessoas, […] os sanfoneiros poderiam ser o centro da festa e não uma banda qualquer contratada por não sei quantos milhões, [valor] às vezes até maior do que o orçamento público”.
Modernização x Perda dos símbolos tradicionais
A modernização dos festejos é um processo normal com o passar do tempo, mas não deveria significar o apagamento histórico da relação entre o São João e as cidades.
Na opinião de Salua Cheuqer, professora que já trabalhou na curadoria de uma série de eventos juninos no estado, é importante proteger os significados da festa, que é cheia de símbolos. Ela aponta que lembrar as raízes da comemoração, que nasceu em áreas rurais do interior e está intrinsecamente ligada à agricultura, é necessário para evitar a descaracterização do evento.
“A festa saía de uma casa de família para outra e enchia a cidade de música, fogos, bandeirolas, [celebrando] a fartura da agricultura. São inúmeros símbolos”.
Nesse sentido, ela defende que conhecer e fortalecer os significados das bandeirolas, da fogueira, das bandas de pífano e dos sanfoneiros — mesmo diante das modernizações — pode ajudar a proteger a identidade dos festejos.
Leis de proteção e fomento
Leis como a nº 14.900, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2024, e a nº 13.368, sancionada pela Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) em 2015, são ferramentas que buscam valorizar o São João. A primeira reconhece as quadrilhas juninas como uma manifestação da cultura nacional, enquanto a segunda estebelece normas para a promoção da identidade cultural regional na Bahia.
A norma estadual, conhecida como Lei da Zabumba, preza pelo fortalecimento de artistas locais em eventos que representam a cultura baiana. Diante disso, o texto da lei prevê que 60% das contratações de artistas de grupos musicais devem priorizar profissionais que simbolizem a cultura local.
No caso do São João, a lei reconhece o ritmo forró como uma das expressões consagradas e parte da cultura baiana. Ainda assim, artistas e público não veem efetividade nas determinações previstas em lei.
Apesar da existência de leis que reconhecem a importância imaterial do período junino, este tipo de legislação compõe uma dimensão abstrata da efetiva proteção de uma manifestação cultural. É apenas a partir do registro ou tombamento de um aspecto imaterial que é possível, de fato, evitar a descaracterização de um aspecto cultural.
Para José Roberto, trazer a questão ao debate público é essencial, uma vez que há um interesse claro da população em manter aspectos tradicionais da festa. O debate é também um caminho para discutir a longevidade de quadrilhas juninas, sanfoneiros e bandas de pífano — manifestações que têm enfraquecido ao longo dos anos. “Isso está formando novos músicos? Novas quadrilhas?”, indaga o historiador, de forma retórica.
“O gestor da cultura também precisa ser um curador e fazer boas escolhas. E essas escolhas passam pela inclusão do artista local, grupos locais. […] Valores muito altos concentram o gasto em uma coisa só. Se você tem gastos mais bem distribuídos, [é possível] pagar bons cachês para pessoas da casa”, pontua.
Na Bahia, a fiscalização desses gastos é encabeçada pelo Ministério Público, que estima ter garantido uma economia de mais de R$ 20 milhões com a redução de cachês dos artistas em shows firmados no estado em 2026. Já o direcionamento dos recursos disponíveis — se vai para artistas pequenos ou grandes, representantes dos ritmos tradicionais ou de gêneros musicais diversos — segue em debate por mais um São João. G1


















