Crédito: Adab/Divulgação

A lembrança do veterinário Valentim Fidalgo era de atender até cinco ou seis focos de febre aftosa por dia, no início dos anos 1970. Recém-formado, foi trabalhar no Gerfab, extinto órgão de defesa agropecuária da Bahia. “Era uma doença disseminada. A gente ia em três, quatro propriedades por vez com cada foco cabeludo. A gente tinha pena das vacas quando pegava a pinça para tirar uma vesícula do epitélio lingual. A vaca urrava de dor. Ela chorava e eu também”, conta ele, hoje na Agência de Defesa Agropecuária do Estado (Adab).

Naquela época, o enfrentamento à febre aftosa por meio da imunização do rebanho apenas engatinhava no Brasil. Na Bahia, seguindo a tendência nacional, a primeira campanha de vacinação foi em 1968. Agora, quase 60 anos depois, além de relatos como o de Fidalgo terem deixado de ser uma realidade há décadas, o estado está prestes a decretar definitivamente o fim do risco da doença.

Na segunda-feira (1), o estado deu início à última campanha de vacinação contra a febre aftosa, que vai até o dia 30 de abril. O momento vem sendo considerado histórico para pelo setor por selar o fim de 146 ciclos de imunização de rebanhos bovino e bubalino (búfalos) no estado, que são estimados em 13 milhões de cabeças (o sétimo maior do país). A medida é um dos requisitos para que a Bahia receba a Certificação Internacional de Zona Livre de Febre Aftosa Sem Vacinação.

Antes disso, em 2001, o estado já tinha recebido a Certificação Internacional de Estado Livre da Aftosa com Vacinação, como lembra o coordenador do Programa Nacional de Vigilância para a Febre Aftosa (Pnefa) na Bahia e médico veterinário da Adab, José Neder. “Depois de 23 anos, vamos alcançar esse reconhecimento. Essa etapa de abril é crucial porque é a última. Depois disso, os animais não precisarão ser imunizados, a não ser em condições especiais autorizadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa)”, explica.

Na última semana, o Mapa publicou uma portaria que já coloca a Bahia, o Distrito Federal e outros 16 estados nesta posição, ainda que a normativa só passe a valer após o dia 2 de maio. De acordo com a portaria, a campanha de abril também será a última para Maranhão, Pará, Piauí, Rio de Janeiro, Roraima, Sergipe e parte do Amazonas. Outros cinco estados do Nordeste continuarão com vacina obrigatória: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas.

Enquanto isso, em todo o país, apenas Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Acre, Rondônia e partes do Amazonas e do Mato Grosso já têm o reconhecimento internacional de zona livre de febre aftosa sem vacinação pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA).

“A partir de maio, a Bahia entra nesse seleto grupo. Isso agrega valor ao produto, abre novos postos de trabalho, novas indústrias e leva ao reposicionamento do estado no mercado internacional. Coloca a Bahia num patamar muito importante no agro, agrega valor nos produtos da pecuária e não vai ter restrições. Agora, é só o estado fazer o marketing de seus produtos e colocá-los no mundo todo”, acrescenta Neder.

A Bahia exporta apenas para países como Emirados Árabes, Arábia Saudita, Líbano e Egito, algo que é considerado pouco expressivo. No ano passado, foram pouco mais de 5,1 mil toneladas. “É muito pouco. A gente tem condição de multiplicar isso por 50 vezes”, diz Neder. Hoje, os mercados internacionais mais exigentes exigem a certificação livre sem vacinação. No mundo, cerca de 70 países já alcançaram esse status, mas o Brasil tem um peso diferente: tem o maior rebanho comercial do mundo e o segundo maior absoluto (só perde para a Índia, onde esses animais são sagrados).

Trajetória

Os primeiros registros da aftosa no Brasil datam de 1895, após o vírus ter sido descrito no Uruguai e na Argentina. A vacinação só começou na década de 1960, com o avanço na produção de imunobiológicos. Na Bahia, foi especificamente em 1968, com a criação do Grupo Executivo de Erradicação da Febre Aftosa (Gerfab), então sediado em Itapetinga, região com maior rebanho da época – cerca de 180 mil cabeças.

A primeira versão da vacina contra a febre aftosa não tinha a mesma eficácia de hoje, segundo o médico veterinário Valentim Fidalgo, da Adab. Assim, as campanhas tinham que acontecer a cada quatro meses – atualmente, são duas campanhas por ano. No começo, também não havia imunizantes disponíveis para o estado inteiro. “Começou ali e foi-se ampliando para Itororó, Itabuna, subindo gradativamente. Foram contratados médicos veterinários e técnicos auxiliares, sendo que os técnicos tinham que morar na região e comprovar que tinham uma bicicleta ou um cavalo. Isso seria o meio de transporte para chegar até as propriedades”, conta.

Depois de cerca de 10 a 12 anos, no começo dos anos 1980, foi que os esforços tiveram resultados mais visíveis, com a redução do número de focos. A substituição da vacina aquosa por imunizantes em sua forma oleosa também foi importante para que a vacinação fosse a cada seis meses, ao invés de quatro. “É a mesma vacina que usamos hoje, porém a atual é muito mais elaborada, além da constância de vacinação. Nós também pecávamos porque a vacinação era a partir dos quatro meses, acreditando que o colostro (leite produzido após o parto) dava imunidade ao bezerrinho”, lembra Fidalgo. Pesquisas ao longo dos anos mostraram que isso não acontecia e que o bezerro devia ser vacinado desde o primeiro dia.

O último caso de febre aftosa no estado foi registrado em maio de 1997, na cidade de Jussari, no Sul do estado. Nas duas décadas seguintes, a cobertura vacinal na Bahia ficou acima dos 90% exigidos pelo Mapa.

A febre aftosa provoca febre e o surgimento de vesículas e feridas na boca, nos pés e no focinho, além de apatia e salivação excessiva. Em geral, os animais morriam porque não bebiam água e não comiam. A doença não afeta humanos, ainda que seja uma zoonose. “O vírus é perigoso porque é de consequências sociais, econômicas e políticas”, diz o veterinário Valentim Fidalgo. “Para mim, essa campanha agora tem o sabor de São Jorge matando o dragão. Todos os produtores, todos os criadores e todos os órgãos de defesa matando o dragão”

Criador de gado de corte em Sítio do Quinto, Rubens Leonardo foi um dos que viveu essa luta nas últimas décadas. “É um pouco sofrido porque tem o manejo do gado, tem o estresse no curral. Também ficava um pouco restrito porque alguns estados não queriam receber gado nosso e, quando ia comprar de outros, a Bahia nem sempre aceitava entrar. Mas a gente nunca deixou de vacinar”, lembra.

Ele administra cerca de 1,7 mil cabeças de gado nelore e costuma vender para os estados de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e a própria Bahia. A cada campanha, o investimento nos imunizantes fica em torno de R$ 2,3 mil. “Vai diminuir os custos tanto do financeiro quanto operacional de mão de obra”.

Por vezes, após a vacinação, o rendimento dos animais caía. Alguns demoravam alguns dias para se recuperar do estresse. “Tinha até perda de animais, porque às vezes algum caía e quebrava a perna. Mas o prejuízo era insignificante em comparação ao que a febre aftosa dava. Com certeza, com a certificação vai ficar melhor porque vão confiar mais na gente. Graças a Deus, todo mundo seguiu a regra e conseguimos esse feito histórico”.

Como será

Esta última vacinação será para todos os animais, de todas as idades, desde o primeiro dia de vida. A meta é alcançar 100% do rebanho. Mas, além da campanha, a Adab começou neste mês a chamada vigilância sorológica, que é um dos requisitos para pleitear a certificação.

O órgão selecionou uma amostragem da população de animais para o estudo epidemiológico, tanto com sorteios quanto em propriedades com maior número de movimentação. Os resultados devem ser concluídos em junho e enviados ao Mapa. O órgão federal pode enviar as informações à OMSA, que é quem emite a certificação. A estimativa é de que todo o processo seja finalizado em até dois anos.

Para o coordenador do Pnefa, José Neder, a conquista é resultado do trabalho conjunto: desde os produtores rurais, que entenderam o chamado, até as autoridades de defesa agropecuária. “O plano começa com o controle, com o combate, depois passa para a erradicação. Depois da erradicação, que é o último patamar, temos a certificação de livre”. A partir de maio, inclusive, a vacinação do estado fica proibida.

Assessor técnico do Sistema Faeb/Senar, que representa o setor, o médico veterinário Carlos Rio explicou que a entidade tem feito treinamentos com os técnicos para a vigilância passiva, após o fim da vacinação. Para ele, esse acompanhamento deve ser feito de forma muito atenta e rigorosa.

“Mas enxergamos que a suspensão da vacinação é um passo significativo para o desenvolvimento da pecuária no estado. Haverá redução de custos, porque os produtores não vão precisar investir em vacinas e em mão de obra para vacinar. Também terá o aumento da competitividade, exatamente por poder explorar esses novos mercados”. Correio da Bahia