Foi cumprida por volta das 13h desta sexta (28), a decisão de Justiça de transferir o corpo da ialorixá Mãe Stella para Salvador. Um oficial de Justiça entregou a decisão na Câmara de Vereadores do município de Nazaré das Farinhas, no recôncavo baiano, onde o corpo dela estava sendo velado. Aos 93 anos de idade, Mãe Stella morreu nesta última quinta-feira (27), em Santo Antônio de Jesus, também no recôncavo.

 

Após isso, filhos de santo e integrantes do terreiro Ilê Axê Opó Afonjá seguiram pelas ruas levando o corpo de mãe Stella em direção ao carro de uma funerária. Tudo isso aconteceu na presença de homens fortemente armados da Polícia Militar.  O TJ da em Nazaré determinou a transferência do corpo de Mãe Stella de Oxóssi para o Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador.

 

Na decisão, a juíza Caroline Rosa de Almeida Velame Vieira ainda determinou que o supultamento não seja realizado no município de Nazaré das Far inhas, onde ocorria o velório desde a última quinta-feira (27). O pedido foi feito à Justiça pela Sociedade Cruz Santa, entidade civil que mantém e administra o Ilê Axé Opô Afonjá. As petições foram protocoladas durante a madrugada desta sexta-feira segundo informações do Correio da Bahia.

 

Na decisão, a juíza entendeu que “se deve conceder à comunidade o exercício do culto religioso, ante a supremacia do princípio que aqui seria violado, de forma irreversível, do exercício livre da religião da qual a Iya Stella de Oxossi era líder, bem como a proteção do patrimônio histórico e cultural do exercício da religião de matriz africana”. Ao comentar a decisão, a companheira de Mãe Stella, a psicóloga Graziela Domini, criticou a posição de Justiça.

 

“A gente tinha recebido uma liminar e eu dei ciente. A gente poderia ter entrado com um recurso, mas eu não entrei. Vocês viram que eu estava convidando vocês para dar uma entrevista coletiva para dizer que do mesmo jeito que eu respeito a autoridade religiosa eu respeito a autoridade civil. Eu disse que se saísse uma liminar dizendo que era para levar o corpo eu simplesmente entregaria. Eu só não consigo entender com uma juíza dá uma liminar de um tema que ela não conhece. Mãe Stella é Maria Stella de Azevedo Santos, uma pessoa civil, que tem direito a escolhas. A juíza deu uma decisão de um assunto que ela não conhece, que é o candomblé. Com certeza ela não conhece por que é um assunto profundo”, afirmou.

 

A companheira de Mãe Stella criticou ainda a postura dos filhos de santo. “Eu poderia entrar com o recurso, mas eu não ia deixar o corpo de Mãe Stella rolando de um lado pra outro. Quando eu ia falar com a imprensa para avisar isso eu vi uma cena grotesca. Eu nunca vi isso. Eu nunca esperei ver isso [a retirada do caixão] já que eu iria liberar. Isso não é uma gerra. Não se tem motivo para comemorar. Isso é um erro. Eu não consigo entender de tirarem minha esposa de mim no enterro dela”.

 

Graziela afirmou ainda não vai para o Ilê Axé Opô Afonjá. “Mãe Stella está comigo para sempre. A vida, os ensimamentos, o que vivemos é nosso. Eu não tenho porque ir lá. Eu não frequento lugares grotescos.Eu sou pelo amor e pela paz. Eu não tenho como ir para um ambiente como esse”.  No pedido para a Justiça, a Sociedade argumenta que é necessário fazer as “obrigações religiosas referente a religião de matriz africana candomblé, o ritual do sepultamento e, subsequente, do axexê”.

 

“Nos ritos de religião de matriz africana, o sepultamento e o ritual do axexê é fundamental, sobretudo, para uma líder religiosa, para tal desiderato é necessário que seu corpo físico, mesmo que morto, esteja dentro do espaço religioso no qual foi sacralizado, no caso de Mãe Stella de Oxóssi esse lócus é o terreiro do Ilê Opô Afonjá”. Eles ainda consideraram que o velório e sepultamento fora do terreiro é “uma afronta a toda a uma tradição religiosa Africana a eus acomunidade”.

 

A juiza afirmou, em sua decisão, que a não relização do ritual religioso seria uma “medida irreversível” e que poderia colocar em risco a “continuidade dos ritos religiosos” do terreiro. “Nesse nessa monta, ante a precariedade da decisão vê-se que causará menos prejuízo se o velório se der em Salvador, visto que assim se estará evitando que todo um culto religioso seja violado ante a alteração do lugar do sepultamento da Iya Stella de Oxossi, ainda que indo contra o exercício da companheira de escolher o local de sepultar o corpo conforme direito que lhe assiste”, acrescentou a juíza.

 

Em nota, a Comissão Especial de Combate à Intolerância Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Bahia (OAB-BA) se manifestou afirmando que entende que a realização do velório e enterro deveria ser feito com o ritual religioso.

 

“Assim, a prima facie, o conjunto de elementos próprios ao cerimonial fúnebre nos termos da profissão de fé da liderança religiosa deve ser rigorosamente respeitado, em consideração à memória e empenho sobre-humano da religiosa em testemunhar da religião de matriz africana de forma sensível e translúcida”, diz a nota.