Luis Madaleno/Divulgação

Depois de ser projetada internacionalmente por liderar a equipe brasileira que sequenciou o genoma do coronavírus em 48 horas (o que demora, em média, 15 dias), a doutora Jaqueline Goes de Jesus, de 34 anos, está longe de querer parar. Soteropolitana e biomédica de formação, a cientista quer entender como se dá a transmissão de doenças entre o Brasil e Angola, país do continente africano. Os estudos podem ajudar a impedir que vírus se espalhem de maneira descontrolada em ambos territórios.

O projeto de pesquisa rendeu à Jaqueline Goes o prêmio na categoria Ciências da Vida, da 18º edição do programa Para Mulheres na Ciência, realizado pelo Grupo L’Oréal no Brasil, Academia Brasileira de Ciências e Unesco. O prêmio tem como objetivo destacar e promover a participação de mulheres em diversas áreas científicas.

“A ideia e a relevância do projeto no contexto da saúde pública foram premiadas, o que me deixa muito feliz. O prêmio em dinheiro será utilizado para desenvolver o projeto”, afirma. Sem o recurso, Jaqueline Goes acredita que não seria possível sequer cogitar tirar os planos do papel. A pesquisa que ela propõe é complexa e envolve estudos em aeronaves que transportam passageiros entre os países.

A ideia é monitorar os patógenos que são trazidos e levados nessas viagens. “Outros estudos já mostraram que uma das linhagens da chikungunya foram introduzidas no Brasil e, em Feira de Santana, mais precisamente, por um passageiro que veio infectado da Angola”, explica. Ao descobrir o “caso zero” (primeiro paciente infectado) é possível mitigar a contaminação de mais pessoas.

Uma linhagem do vírus da zika que só circulava no Brasil também já foi identificada no outro país. Mas afinal, porque estudar a relação com Angola e não com outros países que recebem brasileiros e vice-versa? “Existe uma rota de transmissão de patógenos, especialmente de vírus transmitidos por mosquitos, porque Angola e Brasil apresentam adequação climática muito parecida”, explica a doutora.

“Na Pangeia, quando os continentes eram unidos, o Brasil ficava ao lado de Angola, então, geograficamente e climaticamente, os países reproduzem as mesmas condições que favorecem a transmissão dessas doenças”, completa Jaqueline Goes. Para além da preocupação científica, a pesquisa tem motivação pessoal.

Como mulher negra, a biomédica vê nos estudos uma oportunidade de estar em contato com a sua ancestralidade. Atualmente, Jaqueline é professora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, dá cursos e palestras, além de ser pesquisadora.

por Jaqueline Goes – Biomédica e pesquisadora

“Poder trabalhar com comunidades africanas, levar e aprender recursos intelectuais é uma vontade própria. Eu encontrei nessa rota não só uma pergunta científica que faz sentido, mas uma motivação pessoal”. Correio da Bahia