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A passagem de Jair e Michelle Bolsonaro por Salvador não teve tanto impacto quanto os aliados gostariam. Ainda assim, não deixa de chamar atenção que o casal arrasta uma militância que não se importa se eventualmente existam investigações que colocam Jair no centro de uma trama golpista ou se Michelle tenha se tornado uma alternativa política possível diante dos enroscos do marido.

O ex-presidente não fugiu do script favorito: pregou para convertidos e atacou o petismo e os adversários. A fala sobre Israel e o convite de Benjamin Netanyahu foi uma provocação explícita, em um ambiente em que a bandeira israelense tremulava, apoiada pela confusão causada pelas igrejas neopentecostais e o Estado de Israel bíblico. Eis um exemplo de como o discurso continua repleto de falhas, porém continua sendo aplaudido por um séquito de apoiadores, que muitas vezes desacreditam da Terra ser redonda.

Entre os políticos, poucos gostaram da ideia de posar para fotos ou ser associado ao casal ex-presidencial. Fora aqueles eleitos na onda do bolsonarismo ou do conservadorismo que teve quase 50% dos votos no Brasil e pouco menos de 30% na Bahia, quase ninguém com mandato participou do tradicional beija-mão que aconteceria com alguém que há pouco tempo deixou o poder. A lógica do café frio continua sendo válida, ainda que insistam em fingir que não há.

Michelle foi pelo mesmo caminho. Discursou no tom de quem reconhece o filão eleitoral no qual investir e que tem sido alimentado por Bolsonaro há pelo menos 10 anos na cena política nacional. É reacionária e conservadora ao ponto de fazer um contraponto entre “ser feminina” e “ser feminista”. No entanto, ela ecoa como uma expressão de uma sociedade que pensa – ou pelo menos acredita pensar – dessa forma antiprogressista. A ex-primeira-dama se coloca como opção nas urnas e, não duvidemos, de ser ela a maior expressão do bolsonarismo em 2026.

Na esteira do populismo, típico do estilo de liderança que o consagrou, Bolsonaro ainda posou de “gente como a gente” em uma pizzaria e uma churrascaria de Salvador e achou tempo para comparecer a um funeral do pai de um colaborador do escudeiro baiano (e pernambucano) João Roma. Tais eventos podem não ter sido planejados com antecedência, mas refletem uma estratégia cristalizada desde o café da manhã com leite condensado e pão.

Na Bahia, não necessariamente o bolsonarismo encontra guarida. Porém não é uma força inteiramente desprezível. Só que ainda não consegue furar a própria bolha, ainda que o discurso encontre eco em um percentual significativo da população. O casal Bolsonaro prega para convertidos e arrasta muita gente. Mesmo que esses eleitores não sejam suficientes para definir uma eleição em território baiano. Por Fernando Duarte Bahia Notícias