Com a prisão recente decretada pelo assassinato do ex-presidiário e dono da Pousada Paraíso Perdido,  Leandro Troesch, a mulher dele, Shirley da Silva Figueredo, tomou banho pouco depois de o corpo da vítima ter sido encontrado com um tiro na cabeça, em um dos quartos do luxuoso empreendimento em Jaguaripe, região do baixo sul do estado, em fevereiro deste ano. Com isso, o exame residuográfico, que procura vestígios de metais como chumbo e cobre nas mãos e roupas, foi comprometido.

“Ouvi mais de 20 pessoas e algumas relataram que Shirley havia lavado as mãos e, em seguida, tomado banho logo depois que viram o corpo. Temos isso relatado nos autos. Foi por isso que o exame de pólvora combusta (como também é conhecido o exame residuográfico) deu negativo nela. Não havia mais vestígio da arma em Shirley. Além disso, o mesmo exame foi feito em Leandro, que também deu negativo, ou seja, ele não pegou na arma”, declarou o delegado Rafael Magalhães, titular de Jaguaripe.  De acordo com ele, o casal estava sozinho no quarto na hora do disparo.

A perícia de local de crime realizada pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT) de Itaparica foi uma das provas que levaram Magalhães ao entendimento do assassinato de Leandro. “O laudo do local de crime diz que a bala entrou próximo à região da nuca e saiu na parte de cima da cabeça de Leandro. O perito disse que coletou o projétil no teto do quarto. Em suas conclusões, ele disse que a cena é distinta da habitualmente vista em um caso de suicídio”, diz o delegado, lendo trecho do documento.

No dia 19 deste mês, o delegado Rafael Magalhães concluiu a investigação com base nos laudos, emitidos nos dias 5 e 11 de março, juntamente com outros exames periciais e depoimentos de testemunhas, e indiciou Shirley como autora do crime e a amiga dela, a ex-detenta Maqueila Bastos, como cúmplice. A mulher de Leandro continua foragida, mas Maqueila chegou a ser presa em Aracaju (SE) e foi trazida à Bahia, onde posteriormente deixou o Presídio Feminino, após a Justiça não converter a prisão temporária em preventiva.

Novo laudo

Uma semana após a Polícia Civil concluir que o empresário Leandro não se matou, um novo laudo do DPT de Itaparica, desta vez realizado por um médico legista, não descarta também a possibilidade de suicídio. O documento, ao qual a TV Bahia teve acesso, diz que “as lesões encontradas são compatíveis com um suicídio”. Porém, dando continuidade ao seu comentário no mesmo parágrafo, o médico legista relata: “Entretanto, uma simulação de suicídio, sem dúvida, poderia deixar as mesmas lesões”.

Antes de apresentar suas conclusões, o médico legista pondera que “não cabe a ele a definição da causa da morte porque não teve acesso às demais provas do inquérito policial”. Procurado para comentar o novo laudo, o delegado Rafael Magalhães disse que ainda não recebeu o documento. “Primeiro que esse laudo ainda não chegou a mim. Além do mais, esse documento foi feito por um legista que sequer esteve na cena do crime, ao contrário do perito criminal, que fez um excelente trabalho, trazendo  elementos que me ajudaram a chegar a conclusão de que Leandro foi assassinado”.

Diante do imbróglio, o Ministério Público da Bahia (MP) divulgou uma nota pedindo novas informações e a reconstituição do caso à Polícia Civil, já que os documentos encaminhados pelo delegado Rafael Magalhães, que preside as investigações, são inconclusivos.

Entenda o caso

A pousada começou a alimentar os noticiários policiais com as prisões de seus donos, Leandro Silva Troesch e Shirley da Silva Figueredo, em fevereiro de 2021, após serem condenados por roubo e extorsão mediante sequestro contra uma mulher em Salvador. Um ano depois, Leandro foi encontrado morto dentro de um dos quartos – ele e Shirley estavam respondendo pelos crimes em liberdade.

Desde então, mais fatos foram surgindo, assim como novos envolvidos. Após o sumiço de Shirley, a polícia chegou até o nome de uma amiga dela, Maqueila Bastos. Elas se conheceram no presídio feminino. Os investigadores descobriram ainda que Maqueila havia sido demitida da pousada dez dias antes da morte de Leandro, que não aprovava a amizade entre a esposa e ex-presidiária.

Sem Shirley e Maqueila, a polícia contava com o depoimento de Marcel Silva, o Billy, amigo de infância de Leandro que o reencontrou no Complexo Penitenciário da Mata Escura, em Salvador. Marcel era uma pessoa de confiança de Leandro e por isso era considerado “peça-chave” no inquérito que apura a morte do patrão, mas foi assassinado um dia antes de prestar depoimento.

Diante das novas informações, a polícia considerou importante o interrogatório de Shirley e Maqueila e, por isso, as prisões delas foram decretadas pela Justiça. Somente Maqueila foi localizada. Ela estava em Aracaju e foi trazida para Salvador, onde ficou custodiada na Delegacia Especial de Repressão a Crimes contra a Criança e o Adolescente (Derrca). A Justiça, no entanto, não converteu a prisão temporária em preventiva, e ela foi liberada. A pousada Paraíso Perdido, situada na Praia dos Garcez, continua funcionando. Correio da Bahia