Foto: Joá Souza | GOVBA

Ansiedade, angústia e esperança, esses sentimentos andam juntos quando o assunto é doação de órgãos. Somente na Bahia, mais de 3 mil pessoas estão à espera de um doador para voltar a ter uma felicidade plena, como foi o caso de Laura Fernanda dos Santos Silva, de apenas 7 anos, que teve a sua vida transformada após ser submetida a um transplante renal.

“Eu sou muito grata a moça que doou o órgão a Laurinha. Foi uma moça de 28 anos, eu sou muito grata à família dela por ter permitido a doação. É muito importante e já salvou duas vidas na minha casa”, afirmou Gilmara Aguida dos Santos Silva, mãe de Laura, ao Portal A TARDE.

O procedimento que pode dar um novo rumo aos destinos de mais de 42 mil brasileiros que estão na fila de transplantes está mais fácil e ágil. A partir de agora, apenas com preenchimento de um formulário e um clique, o cidadão pode eternizar a sua decisão de ser um doador de órgão, assim como acende um alerta para que as famílias consagrem o desejo do ente, após a sua morte.

A nova ferramenta eletrônica que sinaliza a vontade individual para a doação de órgãos surge em meio à necessidade de conscientizar a população sobre a importância do assunto. O sistema é uma iniciativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) junto com o Conselho Federal do Colégio Notarial do Brasil para estimular a inscrição de potenciais doadores.

Para se inscrever, basta acessar o site AEDO e preencher o formulário. Em seguida, o cidadão deve se dirigir a um cartório para que providencie a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO) com reconhecimento da assinatura por autenticidade. O site, que entrou em vigor no último dia 3 de abril, possibilita a doação dos seguintes órgãos: coração, córnea, fígado, intestino, medula, músculo esquelético, pâncreas, pele, pulmão, rins e valva (coração).

O coordenador do sistema estadual de Transplantes, Eraldo Moura, explica sobre a necessidade do programa, especialmente para que as famílias considerem o interesse dos seus entes.

“É um programa onde você cadastra as pessoas que querem ser cadastradas e fica registrado lá. No ponto de vista legal,a família é obrigada a ser consultada e autorizar. Isso não vai mudar. O que muda é que hoje muitas pessoas, mesmo querendo ser doadoras, não informam para a família se querem ser doadoras ou no momento em que morre, por algum motivo, a família não efetiva a doação”, explicou.

“Esse sistema tem o objetivo de que no momento que você tiver esse cadastro, as centrais de transplantes do Brasil podem acessar e tendo o nome daquela pessoa que veio a falecer no cadastro é um argumento a mais para a família do indivíduo que documentou e registrou em vida que queria ser doador. Então, isso equivale a 25% das famílias que não autorizam porque não sabem o que a pessoa queria em vida”, acrescentou.

Neste ano, cerca de 61% das famílias baianas rejeitaram a possibilidade de manter vivo o seu familiar em outro ser humano, em caso de morte encefálica (ME), segundo informações do Registro Bahiano de Transplantes (RBATX), publicado pela Secretaria Estadual de Saúde (Sesab). Já em relação a doação de córneas ainda não houve negativa. No que se refere as doações efetivadas somam-se 177 de ME e 749 de córneas.

A secretária estadual da Saúde (Sesab), Roberta Santana, acredita que o novo sistema trará celeridade ao processo de doação.

“Isso é importantíssimo para que a gente tenha celeridade e deixa a pessoa para que naquele momento, não pode opinar, não deixe somente à margem da família e seja uma opção dele também fazer a doação dos órgãos”, disse a gestora ao A TARDE.

E acrescentou: “Esse ano, a gente conseguiu superar o número de órgãos. Então, temos um trabalho muito forte junto aos nossos hospitais na captação. Precisa ser feito um trabalho de conscientização e os nossos profissionais foram preparados para isso”.

Cadastros na Bahia

A Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO) poderá ser acessada por cada responsável pelo sistema estadual de Transplantes, segundo pontuou Eraldo. De acordo com ele, até o momento, a Bahia ainda não acumula registro de pessoas no banco de inscritos.

“Cada estado ficará responsável pelo seu filtro. Será um cadastro único, onde os baianos poderão se cadastrar no sistema nacional e, caso uma pessoa de outro estado, vier [morar] aqui e falecer, essa pessoa se tiver cadastrada pode ser acessada porque cada sistema de transplante poderá ter esse acesso”, esclareceu.

Por meio da Central Nacional de Doadores de Órgãos, será possível consultar a autorização da pessoa falecida – com o número do CPF – junto ao Sistema Nacional de Transplantes (SNT), que é ligado ao Ministério da Saúde.

Doação que transforma destinos

O momento de tristeza que representa a morte de um ente querido pode se transformar em renascimento para quem aguarda na fila de transplante de órgãos. A história da pequena Laura Fernanda, de apenas 7 anos, citada acima, é um exemplo da transformação do luto em alegria.

A menina apresentou sintomas semelhantes ao do seu pai, que também é transplantado renal, e foi diagnosticada com problema aos 6 anos, no dia 29 de dezembro de 2022. Detectado a doença, a garota foi submetida ao processo de diálise no Hospital Roberto Santos.

“No finalzinho de 2023, Laura estava se sentindo mal, sem se alimentar e levamos ela ao médico que descobriu que ela tinha um problema renal. […]. Foi muito sofrimento e muita luta por ela ser uma criança”, contou a mãe de Laura, Gilmara Aguida. Durante o processo, Laura chegou a contrair dengue hemorrágica e anemia.

“No dia 11 de outubro [de 2023], fui informada que ela estava concorrendo ao rim e ela foi a mais compatível para ficar com o rim. [Com isso], ela transplantou no mesmo dia no Hospital Ana Nery. Hoje, ela não se sente mais mal e é uma menina saudável”, relatou.

Segundo Gilmara, o problema renal de Laura é considerado hereditário, conforme afirmam os profissionais de saúde.

Na Bahia, a demanda maior na fila do transplante para doação de órgãos é o rim, conforme dados da Sesab. Atualmente, 16 pessoas esperam para doação de um rim pediátrico. Enquanto ao público adulto, esse número chega a 2.014.

A mãe de Laura acredita que as famílias são essenciais para que o AEDO possa captar novos doadores.

“Tem gente que tem medo de doar, na hora da dor não assina. Mas, eu acredito que vai dar certo. Hoje, é uma conversa que precisa ser feita em casa para [as famílias] saberem que ela é uma doadora. Porque salva muitas vidas”, destacou.

Transplante de córnea

Outro órgão bastante procurado no sistema de transplante é a córnea. Com base nos dados fornecidos pela Sesab, 1.461 pessoas aguardam para realizar este tipo de transplante, que já transformou a vida de 582 baianos em 2023.

A advogada Ivania Cavalcante, de 46 anos, foi uma das contempladas com o transplante no ano de 2021. No mês de março de 2019, no entanto, ela viu a vida mudar de cor, após perder a visão parcialmente devido às cinzas do seu cigarro.

“Eu e meu marido, à época, tínhamos um restaurante chamado ‘Privilégio de Bar’, situado no condomínio João Durval [no bairro de Pernambués], por sinal, iríamos participar pela primeira vez, no concurso Comida di Buteco, e eu também estava no 6º semestre do curso de Direito. […]. Um dia, eu fumando um cigarro em frente ao ventilador turbo do bar, a cinza do cigarro voltou e caiu dentro do meu olho direito. […]”, narrou.

Antes do transplante, no entanto, ela foi submetida ao procedimento para colocação de uma lente transparente para tentar dar continuidade aos seus estudos. Contudo, dois dias após o processo, ela teve complicações.

“Eu estava com blackout no olho direito e quando fui me olhar no espelho, o meu olho estava todo branco. [Os médicos disseram] que invadiram um fungo raro, que só dá em planta. Não sei como, os médicos tentaram descobrir, fiz vários exames e eles chegaram a conclusão que uma mistura que contém no cigarro que há plantas devido às cinzas que caíram no olho. […]”, explicou Ivania. Além desta ocorrência, ela também teve elevação na pressão ocular durante o processo.

Após o procedimento, Ivania ainda contou com outra complicação e precisou refazer o processo. Na oportunidade, ela passou por uma cirurgia de glaucoma secundário.

Outros transplantes

A Bahia retomou, após dois anos, o transplante de coração. O contemplado do transplante realizado é natural da cidade de São Felipe, que aguardava há uma semana na fila por um transplante, e conseguiu o novo órgão em março deste ano. O procedimento foi realizado no Hospital Ana Nery, em Salvador.

O procedimento pôde acontecer após a doação realizada por familiares de um paciente de 29 anos, vítima de Traumatismo Crânio Encefálico (TCE), que estava internado no Hospital Clériston Andrade, em Feira de Santana, cidade a cerca de 100 km da capital baiana.

Apesar do retorno da operação, a demanda para o transplante de coração na Bahia ainda é baixa. Segundo o coordenador do Sistema Estadual de Transplantes, Eraldo Moura, apenas uma pessoa aguarda na fila de transplante para doação de coração.

O estado, contudo, não realiza mais nenhum tipo de transplante de pulmão. Os pacientes que necessitam da modalidade são encaminhados para São Paulo ou Rio Grande do Sul, conforme informou Moura, que também é médico.

“A perspectiva é que a gente volte a fazer o transplante de pulmão este ano ainda. A gente está reformando e estruturando o Hospital Octávio Mangabeira (HEOM), a partir desta reforma, vamos retomar o transplante de pulmão”, concluiu. A Tarde