Foto: Alberto Maraux / SSP

De tempos em tempos, as organizações criminosas no Brasil se reinventam na tentativa de burlar as forças de segurança e aqui não seria diferente. Depois que a polícia focou suas ações no combate à extorsão de comerciantes em Salvador, o Comando Vermelho (CV), pioneiro na modalidade, vem usando uma nova alternativa para escapar do cerco. Com o rastreamento dos depósitos e das transferências bancárias, agora, a facção utiliza duplas de motoqueiros para a coletar a “taxa de segurança”.

“Eles começaram a ter prejuízo com as prisões, depois que a cobrança virou um assunto público. Nas operações, alguns deles (traficantes) acabaram mortos. Então, mudaram a tática”, contou um morador da região. Em setembro de 2020, o CORREIO denunciou com exclusividade o esquema do CV no Lobato, que, na ocasião, obrigava os comerciantes a depositarem ou transferirem até R$ 100 por semana para que não fossem mortos. “Hoje, a taxa está entre R$ 100 e R$ 200”, emendou a fonte.

A extorsão foi instituída em 2019, quando ainda o ainda Comando da Paz (CP) não tinha sido incorporado ao CV – apenas seguia as determinações da facção carioca. À época, traficantes executaram Robson dos Santos Batista, de 35 anos, e o sobrinho dele, Osmar Gonçalves Batista Neto, de 29, dentro do ferro-velho da família. O crime foi uma punição e um recado aos demais comerciantes que não aceitavam a extorsão. Após as mortes, entre 2019 e 2020, pelo menos dez ferros-velhos foram fechados no trecho do bairro na Avenida Suburbana.

“E o medo permanece. Os caras de moto passam sempre às sextas, no final da tarde, para pegar o dinheiro. Não precisam dizer nada. Param na porta e as pessoas entregam a grana como se fosse uma coisa natural. Eles não exibem as armas, porque todo mundo já internalizou a ameaça, mas se necessário, fazem”, contou.

De acordo com um outro morador, o local onde a extorsão está mais presente é na localidade do Jardim Lobato, em frente ao antigo posto de combustível Ipiranga e ao lado de um ponto de ônibus e mototáxi na Avenida Suburbana. “Todos os comerciantes, pequenos ou grandes, pagam. Um cara que tinha um petshop saiu de lá este ano, achando que era a solução, e abriu a loja perto do viaduto do Lobato. Que nada! Dois do Comando numa moto foram lá e não só cobraram como ameaçaram matar ele e a família, caso mudasse novamente de lugar. Foi então que o proprietário abandonou o ponto”, contou.

Em uma das cobranças, o CV levou a pior. “Não tem um mês que foram para cima de um comerciante novato. Primeiro eles mandam recado, dizendo que vão passar pra pegar o dinheiro. Os caras de moto nem chegaram a descer e foram recebidos a balas. O dono era policial. Nesse local, agora, depois disso, pessoal passa o dinheiro para um comerciante da coligação deles, que faz o Pix para o CV”, relatou uma dona de casa, que reside na região há mais de 20 anos.

Mulheres

Para evitar uma nova surpresa, a facção tomou o cuidado de substituir os cobradores em duas rodas por mulheres na Avenida Vasco da Gama, onde a extorsão passou a ser realizada nos primeiros 15 dias do ano. “Sempre jovens e com algum tipo de ligação com os traficantes, normalmente são namoradas, irmãs ou ‘rifeiras’, que já sabe onde devem ir e não andam armadas. Se não rola o dinheiro, elas apenas informam a quem é de direito e as providências são tomadas”, relatou um dos comerciantes da região.

No dia 23 de fevereiro, Silvana Monteiro Silva foi presa na Vasco da Gama, sob suspeita de extorsão a comerciantes. Ela estava com R$ 800, quando surpreendia por policiais militares da 41ª Companhia Independente (Federação), que atenderam a uma denúncia anônima. Segundo a polícia, ela confessou o crime e foi levada para o Departamento Especializado de Investigação e Repressão ao Narcotráfico (Denarc). A Polícia CIvil informou que a suspeita foi liberada depois de ser ouvida, “por não existir materialidade delitiva no ato”.

A extorsão não é uma prática exclusiva no Lobato. Engenho Velho da Federação, Tancredo Neves já registam o mesmo problema. Em Cosme de Farias, por exemplo, o dono de uma revendedora de gás foi executado por não pagar a taxa de R$ 7 mil.

Mortos e feridos

De acordo com o Instituto Fogo Cruzado (IFC), cinco pessoas já morreram e outras duas ficaram feridas durante confrontos no bimestre deste ano no Lobato. Moradores relatam que, por anos, o bairro era dominado pelo Bonde do Maluco (BDM). Porém, a partir de 2019 o BDM começou a perder espaço para o CV. No dia 15 deste mês, traficantes invadiram casas e executaram dois rapazes na Rua Voluntários da Pátria, região de domínio do BDM. No dia 3, uma mulher foi morta a tiros na Rua Algaroba do Jones. Já em 30 de janeiro, um jovem, de Boa Vista de São Caetano, teve a cabeça esmagada. E no dia 17 do mesmo mês, um homem teve o corpo crivado de balas.

Para além do banho de sangue, a guerra entre os traficantes leva o pânico a quem vive na linha de tiro. No último dia 24, uma mulher foi baleada quando retornava para casa. Ela tinha acabado de sair da igreja e ia para casa, quando foi atingida de raspão na Rua João Deus. Segundo testemunhas, na hora, havia um confronto entre o CV e o BDM. A vítima foi socorrida pela Polícia Militar.

E ainda mergulhado numa onda de violência, o Lobato vive mais uma tensão: traficantes da localidade das “Pedreiras” e os do “Gueto”, ramificações do CV, ameaçam explodir a 16ª CIPM – o motivo seria as ações da PM no bairro. Recentemente, eles retomaram o “Fundão do Lobato”, também conhecido como a “Prainha do Lobato”, antes controlado pelo BDM. Correio da Bahia