Agência Brasil

Historicamente é comprovado que as mulheres se dedicam mais aos estudos do que homens. Quando nos deparamos com dados sobre a empregabilidade, no entanto, a escolaridade não parece ser suficiente para explicar a falta de trabalho. De acordo com dados de agosto do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa total de desempregados na Bahia é de 15,5%, o que equivale a 1,1 milhão de pessoas, sendo 650 mil homens e 450 mil mulheres. No entanto, enquanto 12,3% dos homens economicamente ativos (quase 5 milhões) estão desempregados, a percentagem de mulheres desempregadas é de 19,6% das mais de 2,2 milhões de mulheres economicamente ativas, ou seja, 37% maior que a dos homens. Na mesma linha, a média salarial delas é R$ 177 a menos do a dos profissionais masculinos.

Larissa Menezes, de 25 anos, sabe bem dessa realidade. A jovem mora no bairro São Caetano e está desempregada há três anos. Seu último emprego foi como auxiliar em um restaurante e a renda que recebia ajudava a manter a casa em que mora com a mãe, o padrasto e o irmão mais novo. Hoje o único que trabalha na família é o padrasto, como segurança, e a mãe recebe o Auxílio Brasil no valor de R$ 600.

Desde que ficou desempregada, Larissa, que tem nível médio completo, manda currículos pela internet e busca trabalho em lojas. Durante os momentos mais duros da pandemia, a família recebia cestas básicas doadas pela Central Única das Favelas (Cufa).

“Aqui a gente mora de aluguel, paga luz e água. São muitas contas para pagar. Os preços no mercado também estão muito caros e aqui em casa só uma pessoa está trabalhando”, diz a jovem.

Especialistas ouvidos pela reportagem indicam que uma série de fatores podem explicar o porquê de as mulheres estarem menos empregadas do que os homens em trabalhos formais e informais. O mais importante deles seria a divisão sexual do trabalho, que tradicionalmente atribui tarefas diferentes a homens e mulheres por conta do sexo biológico. Nada mais é do que aquela velha história de que elas devem cuidar da casa e dos filhos, enquanto os homens saem para trabalhar.

“O trabalho produtivo remunerado esteve historicamente ligado aos homens e as mulheres sempre estiveram à frente dos trabalhos reprodutivos, sem remuneração. As atividades domésticas, quando não são compartilhadas, colocam a mulher em uma posição de mais desvantagem para se inserir no mercado de trabalho”, explica Ana Georgina Dias, supervisora técnica regional do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Esse tipo de discriminação acontece inclusive por parte dos empregadores, que muitas vezes acreditam que as mulheres não estarão completamente disponíveis para o trabalho, segundo Márcia Macedo, professora e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim/Ufba).  A  média salarial na Bahia para os homens é de R$ 1.728 e para as mulheres R$  1.605.

Dados mais recentes do IBGE que tratam sobre a divisão do trabalho doméstico da Bahia são de 2019. Eles apontam que mulheres de 14 anos ou mais no estado despediam, em média, 21 horas por semana em afazeres domésticos ou cuidados de pessoas da família, inclusive do marido. Enquanto isso, os homens dedicavam 10 horas semanais a essas tarefas – menos da metade.

“O mercado de trabalho absorve este o olhar e muitas vezes não seleciona mulher para determinados trabalhos por conta da gravidez ou, sendo mãe, das necessidades de se ausentar por conta de problemas com filhos. Na pandemia isso ficou muito claro, quando mulheres sofreram muito com o fechamento de creches e escolas”, diz Márcia Macedo. Os dados de desemprego do IBGE incluem pessoas que não trabalham informalmente e que procuram trabalho, mas não encontram.

Estudos

Mariana Viveiros, superintendente de disseminação de informações do IBGE, lembra ainda que as mulheres são em média mais escolarizadas que os homens na Bahia. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada em 2019, indica que enquanto 13% das mulheres adultas (25 anos ou mais) tinham nível superior, o percentual entre os homens ficou em 8,7%.

“Não existe, pelo menos na história recente, momentos em que a diferença de desemprego entre homens e mulheres tenha ficado significativamente menor. Existe uma questão cultural e histórica que não conseguimos medir. Apesar de tudo, as mulheres são mais escolarizadas que os homens, em média”, afirma.

Danielle Cruz, 29, completou a faculdade de Fisioterapia, mas desde que se formou, em 2015, nunca conseguiu emprego com carteira assinada na sua área. De uns tempos para cá, a situação ficou mais difícil e ela começou a procurar vagas de nível médio, mesmo tendo um curso superior no currículo. No período que passou desempregada, utilizou dinheiro que investiu em um intercâmbio não concretizado para pagar as contas.

“Eu tinha uma viagem programada que deu errado e desde então estou vivendo com o reembolso do que investi. Nesse período comecei a procurar emprego, mas não consegui na minha área. Aí veio a necessidade de buscar vagas de nível médio e estou passando por um processo de contratação”, conta a fisioterapeuta que está para ser contratada em uma área diferente da sua formação. Durante todo esse período Danielle, que luta jiu-jitsu, participou de competições da arte marcial.

“Eu fiquei entre a cruz e a espada porque é difícil conseguir vaga na área de fisioterapia, ao mesmo tempo em que meu currículo é muito especializado para vagas de nível médio”, diz.

Cenário é ainda mais difícil para mulheres negras

A professora Márcia Macedo, que pesquisa sobre relações de gênero e mulheres chefes de família, defende que não devemos generalizá-las, como se todas tivessem as mesmas oportunidades. Segundo a pesquisadora, existe um recorte de raça importante que indica que as mulheres pretas e pardas possuem ainda mais dificuldade para se inserirem no mercado de trabalho.

“Quando falamos em mulheres, acabamos colocando como se todas elas fossem igualmente atingidas. Obviamente ainda existem barreiras de gênero. Mas grande parte do contingente das mulheres que estão fora do mercado de trabalho e ganham menos, são negras e pobres”, explica. “Existem três grandes fatores que mexem com a questão da empregabilidade: raça, gênero e a área de residência”, completa Márcia Macedo.

O levantamento da PNAD realizado no 2º trimestre de 2022 revelou que a taxa de desemprego entre pessoas negras teve crescimento de quase 14% no Brasil. Enquanto isso, a taxa de desocupação entre homens e brancos é abaixo da média nacional (11%), sendo de 7,3% e 7,5% respectivamente. Correio da Bahia