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Os alvos da Operação Kariri têm um histórico que, de acordo com as investigações, remonta à organização do Polígono da Maconha. Esse quadrilátero imaginário envolve uma região com mais de 20 municípios do sertão nordestino que produzem cannabis ilegalmente.

Apesar disso, as cidades onde a família Umbuzeiro teria fazendas – Irecê, América Dourada e Ibititá – não fazem parte do polígono. As principais cidades baianas que ficam na área, por outro lado, são Juazeiro, Paulo Afonso e Glória. Essa localização reflete uma dispersão que tem ocorrido nos últimos anos na região, de acordo com o sociólogo Paulo Fraga, professor do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

“Elas não ficam no polígono, mas a gente observa que, há algum tempo, cidades como Irecê e até algumas mais ao Sul, como Ilhéus e Una, já aparecem (nas operações de erradicação). É uma tentativa de descentralizar”, diz ele, que estuda o polígono há quase duas décadas, citando um movimento comum em países como Colômbia, Bolívia e Peru.

Pernambuco é o principal produtor de maconha do Brasil e, em alguns anos, a Bahia chega a figurar no top 3 do ranking de maiores produtores, a partir do saldo de apreensões. Ainda assim, a erva produzida no país não atende nem 20% do mercado nacional.

“Tem a ver também com a reorganização criminal, não só com o plantio. Há coisas interligadas, como o garimpo ilegal em terras indígenas. Muitas vezes, quando havia repressão no Vale do São Francisco, eles iam assaltar caminhões em estradas”.

O histórico da área não é tão recente quanto se possa imaginar. Segundo o professor, a política de erradicação da maconha no Brasil começou ainda na década de 1930, com a proibição em 1934, sendo intensificada a partir de 1940.

A repressão costumava acontecer com mais intensidade em Alagoas e Sergipe, enquanto o cultivo de cannabis passou a ser feito principalmente às margens do Rio São Francisco, em Pernambuco e na Bahia. “É uma região de seca, mas as águas do rio facilitam muito o cultivo”.

Numa região vulnerável, o plantio de maconha surgiu como uma alternativa para muita gente. O professor cita até casos de pequenos agricultores que tinham, em suas propriedades, plantações de mandioca e de maconha.

“Não basta só reprimir. Tem que dar alternativas também. Lógico que a repressão é importante, porque é um produto ilegal. Mas, nessa região, tem muita gente que estava se envolvendo porque era a alternativa”.

As safras que normalmente levam de seis a oito meses podem ser aceleradas com defensivos químicos e chegar até a quatro meses. “A maconha é uma planta que se adapta fácil, por isso tem quase no mundo todo. Ela é plantada até indoor”.

Reorganização

A partir dos anos 1990, a Polícia Federal fica com a incumbência de erradicar plantações de maconha e há um foco nesta região. Há, ainda, outro aspecto que ele destaca: a reorganização do crime. Hoje, a maior parte da maconha consumida no Brasil vem do Paraguai, em rotas que são dominadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).

“A maconha, para esses grupos, não é a planta mais atraente. Cocaína gera muito mais dinheiro, mas o consumo no Brasil é grande, então continua sendo atrativo e importante ter esse tipo de cultivo”.

O que é produzido no Polígono fica mais no Nordeste – justamente o destino apontado pela polícia para a droga produzida nas fazendas que foram alvo da operação.

A organização familiar nos moldes citados pela investigação, por outro lado, não é tão comum entre os produtores do quadrilátero. “Foge um pouco do padrão. Logicamente existiam famílias já ligadas ao crime, principalmente em Pernambuco, que pelejavam entre si. Mas esse tipo que aparece demonstra um novo tipo de produção e de pessoas envolvidas que foge do padrão tradicional”, avalia o professor.

Reagir a uma abordagem policial, como Rener Manoel Umbuzeiro teria feito, também é algo incomum no tráfico que é feito no Polígono da Maconha. Segundo a PF, Rener morreu em confronto, após ter disparado três vezes contra os agentes.

O mais provável é que a polícia encontre plantações de maconha abandonadas. Em geral, as forças de segurança acompanham essas propriedades por drones e satélites e, quando está perto da colheita, fazem uma operação com o objetivo de causar algum prejuízo aos criminosos.

“Quando chega lá, só tem o plantio. As pessoas, por algum motivo, ficam sabendo e vão embora. É o chamado crime sem atores. Quando tem presos, são pequenos agricultores que às vezes nem sabem quem está lhes pagando. E o cara que está tomando conta do plantio não troca tiros com a polícia. É diferente de confrontos entre policiais e traficantes em grandes cidades, com troca de tiros”. Correio da Bahia