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A água não para de cair na Bahia e, com ela, mais danos. Ontem, mais três mortes relacionadas às chuvas que caem desde o final de novembro foram confirmadas no estado. Na última segunda-feira (27), um casal morreu depois que o carro em que estava saiu da pista e foi levado pela enxurrada, na BR-349, em trecho na cidade de São Félix do Coribe, no oeste do estado. Joaquim de Castro Souza, 54, e Maria Garcia Boa Sorte, 51, foram encontrados lado a lado, na parte de trás do carro. Os dois morreram afogados. Ambos eram de Riacho de Santana, mas moravam em Bom Jesus da Lapa.

Em Ubaitaba, um homem foi atropelado por um motorista que perdeu a visibilidade por causa das chuvas. Ele não havia sido identificado até a finalização desta edição, às 23h. Com esses três novos óbitos, o número de vítimas fatais devido às chuvas na Bahia subiu para 24. Os municípios com vítimas fatais são: Amargosa (2), Itaberaba (2), Itamaraju (4), Jucuruçu (3), Macarani (1), Prado (2), Ruy Barbosa (1), Itapetinga (1), Ilhéus (2), Aurelino Leal (1), Itabuna (2), São Félix do Coribe (2) e Ubaitaba (1).

Segundo dados da Defesa Civil do Estado (Sudec), o número total de feridos subiu de 358 para 434 e mais de 629 mil pessoas foram afetadas (eram cerca de 471 mil). A Bahia soma mais de 37.324 desabrigados e 53.934 desalojados. São quase 20 mil pessoas, no total, a mais em relação a terça-feira. Por outro lado, o número de municípios em situação de emergência caiu de 136 para 132.

De acordo com uma análise do site Metsul Metereologia, com dados da agência climática do governo dos EUA, nenhuma área do planeta teve chuva tão acima da média nos últimos 30 dias como a Bahia. Segundo o governo estadual, o território baiano registrou o maior acumulado de chuvas para dezembro nos últimos 32 anos.

Luciana Cavalcante é uma das muitas pessoas do interior baiano que assistiram suas casas irem abaixo nos últimos dias. Natural de Salvador, ela, o marido e as três filhas crianças se mudaram para a zona rural da cidade de Laje, no centro-sul, buscando sossego para abrir seu próprio negócio, uma ótica. Cerca de duas semanas antes do Natal, a casa chegou a ser alagada devido ao aumento do nível do Rio Jiquiriçá. O que a família não imaginava é que, poucos dias depois, no último domingo (26), a água voltaria com ainda mais força, para fazer um estrago maior.

“Uma amiga chamou a gente para almoçar na casa dela e, antes de ir, fui arrumar um guarda roupa. Nessa hora, ouvi o barulho da água soar estranho e falei para o meu marido que o rio ia subir”, relembra Luciana. Foi então que eles começaram a colocar alguns pertences no alto, em cima de mesas e cadeiras: “Mas não imaginava que a casa iria cair”.

Antes (esquerda) e depois (direita) da casa de Luciana, que desabou por conta das chuvas (Foto: Luciana Cavalcante)

A família, no desespero, decidiu passar pelo meio da mata e sair da casa, que ficava bem próxima da beira do rio. “O medo de morrer foi desesperador, fomos para o meio dos cacaus. No outro dia, quando eram cinco horas da madrugada, fui até o local e meu coração doeu, foi cena de filme, parecia tsunami”, lembra entristecida.

Como perderam tudo, eles estão recebendo doações de moradores e buscam uma casa para alugar na cidade até decidir como vão seguir com a vida: “Só sabemos que vamos continuar morando aqui”. No dia do Natal, completaram-se noventa dias que a família havia se mudado para a cidade. Por sorte, o comércio da família, na região central de Laje, não foi atingido.

Comércio destruído

A mesma sorte Juarez Magalhães não teve. Morador de Ubaitaba, no sul da Bahia, ele perdeu parte do seu comércio, formado por um mercado e um depósito, destruídos na madrugada de sábado (25) para domingo (26). “Na noite do alagamento, eu fui até o mercado e fiz uma instalação provisória, para colocar as mercadorias num lugar mais alto. Mas não imaginava que a água ia entrar e derrubar tudo”, conta.

Segundo ele, o nível da água dentro do estabelecimento, que fica no bairro Conceição, chegou a um metro e meio, causando um prejuízo de cerca de 40 mil reais. Há 14 anos, ele é dono do mercado e, apesar de já ter presenciado alagamentos na cidade, nunca havia sido atingido pela enxurrada. Ele e mais dois funcionários estão desde o final de semana limpando o estabelecimento e contabilizando prejuízos.

Mercadorias do depósito de Juarez Magalhães danificadas após o alagamento (Foto: Juarez Magalhães)

Alexandrina Garcia estava em Salvador e não conseguiu ir visitar a família em Ubaíra, no centro-sul, por causa das rodovias interditadas devido aos temporais. Ela acompanhou de longe o desespero de três parentes que tiveram as casas invadidas pela correnteza, no povoado de Engenheiro Franca, que fica a cinco minutos do centro da cidade. Da casa da mãe, Lucia Regina, que é deficiente visual, sobraram apenas três cadeiras, uma mesa de plástico e alguns poucos utensílios domésticos. O resto todo foi perdido, quando a residência desabou.

O pouco que restou da casa de Luciana Regina em Ubaíra

Entre choros e soluços, Lucia Santiago, prima de Alexandrina, contou em áudio, o que aconteceu na noite de Natal: “Só deu tempo de pegar os documentos, quando eu voltei para pegar uma outra coisa, em questão de minutos, o portão arrebentou e a água invadiu. O nível chegou a ficar na cintura, foi quando me tiraram de lá”.

Além de uma casa demolida, outras duas muito prejudicadas, a família perdeu três automóveis. “É muito complicado ficar de longe, sem receber notícias. Todos estavam ilhados até sexta-feira, falta comida nos mercados e carros tem dificuldade para passar”, relata Alexandrina.

Moradores assistem casas serem alagadas em Ubaíra

Falta água e comida em Dário Meira

O município de Dário Meira, no centro-sul, é um dos mais atingidos pelas chuvas e alagamentos nos últimos dias. Quando o Rio Gongogi transbordou, cerca de 60% da cidade chegou a apresentar alagamentos, segundo a Secretaria de Segurança Pública. Moradores relatam falta de energia e escassez de água e alimentos.

Rastros de destruição no município de Dário Meira na quarta-feira (29) (Foto: Ivan Júnior)

“Eu estou me sentindo em um filme americano, eu vi as notícias na televisão, mas ver pessoalmente é horrendo. Fui em Dário Meira ontem e, na entrada da cidade, já tem gente sentada no meio fio da pista, com uma mochilinha de roupa, avançando no carro pedindo água, comida e remédio”. O relato é da advogada e moradora de Ipiaú, Aline Eça.

Ela e cerca de 30 colegas começaram a se mobilizar no sábado (25) para ajudar os moradores de Dário Meira, que fica a cerca de 50 minutos de Ipiaú. Aline conta que, como muitos moradores perderam suas casas, às vezes a doação de cestas básicas não é suficiente: “Eles não têm onde cozinhar, então produzimos quentinhas e estamos levando de carro para a cidade. Mas não está sendo fácil, não temos equipamentos adequados para atravessar a água”.

O grupo conseguiu arrecadar cerca de dois mil reais para fazer as quentinhas em Ipiaú e levar até Dário Meira. Nesta quarta-feira (29), colegas de Aline levaram 400 quentinhas para alimentar moradores da cidade. A advogada afirma que falta mais organização da prefeitura do município no que diz respeito à distribuição de alimentos: “Poderia ser feito muito mais e de forma mais eficiente. Pessoas que estão em lugares ilhados, deficientes e idosos não estão recebendo comida”.

Em Ipiaú, onde mora, Aline diz que a situação é triste, mas menos preocupante do que o município vizinho: “São cerca de 300 desabrigados e a gente vê que a prefeitura está conseguindo dar conta da situação”.

Voluntários produzem marmitas para serem entregues a moradores de Dário Meira (Foto: Aline Eça)

Rodovias interditadas

A Secretaria de Infraestrutura da Bahia (Seinfra) está trabalhando com 210 profissionais e 135 aparelhos para dar condições de tráfego em rodovias baianas. Segundo a secretaria, são 44 trechos afetados desde o início do período chuvoso. A situação de mais quatro rodovias passaram a ser monitoradas pela Seinfra na quarta (29).

No distrito de Guaibim, na BA 887, a água invadiu a pista em diferentes pontos e só carros e motos trafegam. Na BA 120, foram registrados deslizamentos de terra entre Gandu e Ibirataia. Já na BA 161, que liga a BR 430 com Serra do Ramalho, a chuva tem causado erosões na pista. No site da Seinfra, é possível checar os trechos que estão sendo monitorados pela secretaria.

Segundo o último balanço divulgado pela Polícia Rodoviária Federal, na quarta-feira (29), oito rodovias federais passavam por algum tipo de interdição. Os bloqueios ocorrem nas regiões sul, extremo-sul e sudoeste do estado. Em Dário Meira, no quilômetro 781,2 da BR-030, a interdição é total porque a pista cedeu. O Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (Dnit) afirmou que os reparos serão realizados quando as chuvas cessarem.

Em outros trechos da BR-101, nos municípios de Tancredo Neves, Teolândia, Itamarati e Ibirapitanga, as obstruções são parciais e ocorrem devido a desabamentos de acostamento, desmoronamento de barrancos e intervenções de árvores. Na BR-330, trechos que passam por Jequié e Itabuna também estão prejudicados.

Previsão do tempo

A chuva deu trégua na quarta-feira (29) para muitas cidades que vem enfrentando prejuízos, segundo dados coletados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Mas, na região sul, Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália registraram um acumulado de 8,4mm e 12,2mm respectivamente.

No oeste baiano, onde um casal foi morto ao ter o carro levado pela correnteza, a estação meteorológica do município de Correntina registrou 32mm de chuva, totalizando um acumulado de 100mm em apenas três dias. Em Itabuna, a previsão é que chova entre quinta-feira (30) e sábado (1). Dário Meira, município que enfrenta grandes problemas devido aos alagamentos, além de falta de energia, o sol deve aparecer apenas no domingo (2).

Municípios continuam enfrentando alagamentos

Em Iramaia, na região da Chapada Diamantina, as fortes chuvas deixaram 128 famílias desabrigadas, na terça-feira (28). Segundo a prefeitura da cidade, 18 casas desabaram em meio ao temporal. Os desabrigados foram encaminhados para o Centro de Excelência Professora Zoraide Nascimento. Apesar de a chuva ter dado trégua na quarta (29), a situação ainda é crítica.

No sudoeste da Bahia, na cidade de Nova Canaã, uma casa desabou na tarde de terça-feira (28). O ocorrido foi depois de uma forte chuva, que começou no final da manhã. Vizinhos avisaram a família de quatro pessoas que a casa estava rachada e, minutos depois, o imóvel veio a baixo. Apesar do dano material, ninguém se feriu.

Casa que desabou em Nova Canaã; moradores foram avisados de rachaduras por vizinhos

Correio da Bahia