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“Diversas vezes pensei em mudar de ramo”. É em tom de desabafo que o motorista por aplicativo Ubiratan Sales Carvalho, de 54 anos, fala da profissão que exerce desde 2019. Ele foi vítima de assalto duas vezes em Salvador. Com cargas de trabalho que podem ultrapassar 10 horas diárias, os profissionais enfrentam a rotina permeada por estresse no trânsito, eventuais conflitos com passageiros e apreensão diante de episódios de violência.

De acordo com o Sindicato de Motoristas por Aplicativo da Bahia (SIMACTTER), foram registrados, nos primeiros quatros meses de 2023, 39 furtos e roubos denunciados por associados no estado. A morte de Marcos Luis Silva foi a primeira notificada pela entidade em 2024. No mesmo período do ano passado, foram 83 roubos e dois latrocínios.

Na última semana, um caso de ampla repercussão foi a morte do motorista Marcos Luis Silva Alves, de 29 anos. O crime aconteceu na Avenida Paralela, uma das mais movimentadas da capital baiana, e foi registrado pela câmera interna do veículo. “Diversas vezes pensei em mudar de ramo, mas hoje em dia é complicado. Pela minha idade, é difícil reingressar no mercado de trabalho. Você vira refém dos aplicativos. Falo com colegas que os aplicativos hoje são como se fossem uma senzala e nós os escravos dela”, lamenta Ubiratan Sales.

Violência e desigualdade

Para o advogado e professor de Processo Penal Luiz Requião, os registros de crimes contra motoristas correspondem a popularidade da atividade no contexto de desigualdade social, o que gera violência. “É uma atividade extremamente popular. Quanto mais utilizo de um instrumento, maior a probabilidade de sofrer ações criminosas”, pontua.

“A violência está ligada à desigualdade. Não é um problema só de segurança, não é um problema só de polícia, não é um problema só de justiça. É um problema que passa por outras esferas da sociedade”. Esse contexto social também é observado pelo psicólogo da Holiste Psiquiatria, André Dória. Mestre em Psicologia, ele destaca que o trânsito é também um recorte do tempo que reflete determinado período da história. “Se a gente estivesse conversando sobre trânsito há 30 ou 20 anos, o que chamaria atenção seriam os números de mortes por atropelos. Mas hoje o que a gente conversa é sobre violência”, destaca.

Tensão no trânsito

Outro fator que coloca motoristas por app sob estresse é justamente o tráfego de veículos, o que exige paciência e atenção redobrada. Isso porque, além do risco de acidentes, são comuns os registros de conflitos entre condutores, pedestres e passageiros. Um desses casos, no domingo (5), culminou na morte de um passageiro, em Itabuna, no sul do estado. José da Paixão Santos estava no banco do carona do carro quando foi baleado pelo motociclista que discutia com o motorista. O suspeito do crime fugiu e até o momento não foi localizado. Um homem chegou a ir na delegacia, mas negou participação no caso e foi liberado.

Relacionamento com o público

Um terceiro aspecto que pode acarretar problemas aos motoristas por aplicativo está diretamente ligado ao propósito do trabalho: a relação com os passageiros. Não são raras as denúncias de conflitos registradas por ambas as partes. Em janeiro deste ano, um condutor foi mordido por uma passageira por ter se recusado a ligar o ar-condicionado. Esse caso também ocorreu em Salvador.

À época, Vinicio Ribeiro registrou um boletim de ocorrência. A mulher prestou depoimento e foi liberada. Em novo contato com o g1, ele destaca que essa não foi a única vez em que foi agredido no exercício da função. “Já sofri os seguintes crimes: calúnias, difamações, injúrias e danos ao meu patrimônio”, relembra. Ribeiro atua nos apps há mais de dois anos e ressalta que nunca se sentiu seguro no trabalho, seja pela “crescente onda de violência” ou pela “falta de garantias tanto por parte das plataformas quanto do estado”. G1