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Aliados do governo da Bahia, até aqui, mostram indiretamente que preferem voltar os olhos para o interior nas eleições de 2024 a enfrentar o grupo político do ex-prefeito ACM Neto em Salvador. Os sinais apareciam há algum tempo, mas os pré-candidatos já apresentados são exemplos quase que explícitos de desistência antecipada na disputa contra o projeto de reeleição de Bruno Reis na capital baiana.

Inicialmente, houve uma mobilização do ministro da Casa Civil, Rui Costa, para que o presidente da Conder, José Trindade, fosse alçado à condição de candidato único do grupo político liderado atualmente – pelo menos em tese – pelo governador Jerônimo Rodrigues. Ainda era necessário gerar condições de temperatura e pressão para tornar Trindade viável politicamente, mas ainda assim era perceptível algum tipo de mobilização. Dois movimentos, entretanto, sepultaram esse projeto: a indicação de Robinson Almeida pelo PT e problemas de saúde que inviabilizaram um desgaste maior para Trindade.

Com o dirigente da Conder fora do circuito, Robinson seria o candidato com potencial competitivo para defender o projeto do PT em Salvador. Não que ele seja efetivamente viável, mas é um petista mais clássico e poderia defender, com unhas e dentes, o legado dos governos de Jaques Wagner, Rui e Jerônimo na capital baiana. É a tese de que se é para perder, é possível perder ganhando. Até aqui, apenas o próprio Robinson tem a ganhar. Mesmo que não se torne um adversário potente, mantém recall para em 2026 retornar à Câmara dos Deputados – sonho antigo dele e adiado pela falta de votos que o deixou “apenas” como deputado estadual.

O PT deu recados diversos de que não aceitaria a imposição de Trindade, como chegou a ser cogitado pelo entorno de Rui. Porém, como se já tivesse acostumado com a sina, não produziu qualquer nome com capilaridade suficiente para enfrentar a máquina da prefeitura e um grupo já consolidado em Salvador. Robinson então surge como uma alternativa menos ruim, pois não se incomoda em fazer a defesa “cega” do petismo e das perspectivas do partido para a capital.

Como miséria pouca é bobagem, o próprio Rui teria dito a interlocutores ter lavado as mãos sobre Salvador ao mesmo tempo em que incentivou o Pastor Sargento Isidório a ser candidato a prefeito mais uma vez. Para ajudar no processo de auto implosão, Isidório foi apresentado pelo Avante na mesma semana em que cometeu crime de transfobia na Câmara. Uma pauta bem à esquerda, que permite a união dos partidos satélites ao PT ao parlamentar (contém ironia). Ou seja, tal qual em 2016 e 2020, o Doido não deve ir a lugar algum.

Ainda sobram figuras como Olívia Santana, que pode demarcar espaço para o PCdoB, desde que convença os demais integrantes da federação, PT e PV, de que pode representar todas as siglas. Com a baixa flexibilidade vista na decisão de apresentar Robinson como pré-candidato, não dá para apostar muito alto na hipótese de os comunistas verem uma reprise de 2016, quando Alice Portugal (PCdoB) foi candidata tendo Maria del Carmen (PT) como vice. Se esse milagre acontecer, Olívia, assim, poderia abocanhar nacos de voto, mas nem de longe parece assustar o favoritismo do atual prefeito.

A lista da base governista ainda tem o vice-governador Geraldo Jr. e o MDB. Depois de reerguer politicamente o clã Vieira Lima, seria uma aposta, no mínimo, inusitada colocar Geraldo Jr. como candidato do grupo para enfrentar Bruno Reis. Geddel e Lúcio, que deveriam ter um borrão sobre a biografia diante das malas de dinheiro achadas pela PF, agora posam para fotografias com Jerônimo como se o passado não estivesse tão perto. Colocá-los no protagonismo da disputa é ter a certeza de que Narciso só acha feio o que não é espelho. São escolhas que, aos articulistas, cabe apenas observar – o julgamento fica implícito e o leitor entende sem sobressaltos.

Enquanto isso, nos bastidores, caciques e até o baixo clero do petismo e do entorno dele consolidam a visão de que o foco do grupo são as cidades do interior da Bahia. Com nomes potencialmente competitivos em centros até aqui governados pela oposição, a exemplo de Feira de Santana, Vitória da Conquista e Camaçari, perder em Salvador não seria necessariamente ruim. É garantir as cidades que asseguraram a votação que manteve o PT no poder em um quinto mandato consecutivo na Bahia. O interior é a prioridade – e o governo nem precisa ser mais explícito do que já tem sido. Por Fernando Duarte/BN