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No final de fevereiro deste ano, o ex-ministro Geddel Vieira Lima, que ainda é a principal liderança do MDB na Bahia, teve uma parada cardíaca após um procedimento cirúrgico visando implantar uma prótese em um dos joelhos. Ele precisou ser entubado e passar por massagem cardíaca de reanimação. O emedebista fala pela primeira vez sobre o assunto nesta entrevista exclusiva ao Política Livre, da qual, como sempre, não foge da polêmica, mesmo afirmando estar numa versão low profile. “Se quiser polêmica hoje eu não tenho, vamos remarcar”, brincou no início da conversa, ocorrida no último sábado (22)

Geddel garante que o problema no joelho foi a razão para não participar de forma mais ativa da campanha vitoriosa do governador Jerônimo Rodrigues (PT) em 2022. “Se alguém tinha uma expectativa de que eu desse apoio escondido, envergonhado, não buscasse o nosso apoio, até porque digo sempre e repito: Lula (PT) foi eleito presidente pela terceira vez e passou pelo mesmo lugar que passei, a diferença foi de dias”, diz o ex-ministro, referindo-se à experiência da prisão e acrescentando que tem dialogado com figuras próximas ao Palácio do Planalto, principalmente do MDB nacional.

Na entrevista, Geddel opina sobre os primeiros meses dos governos de Lula – a quem alerta para não cometer os mesmos erros do toma-lá-dá-cá com o Congresso – e de Jerônimo, a quem recomenda dar uma atenção especial à área de segurança pública no Estado. Ele fala ainda sobre a relação com o prefeito Bruno Reis (União) e com o ex-prefeito ACM Neto (União) e do cenário eleitoral, reafirmando críticas à conhecida postura hegemonista do PT. “Ter pretensão é legítimo, mas é contraproducente se reunir dizendo que vai apresentar nomes (para concorrer ao pleito)”. Confira!

Nas eleições de 2022, o MDB da Bahia, que tem no senhor uma das principais lideranças, se não a principal, apoiou a candidatura do presidente Lula (PT) mesmo o partido tendo candidata própria ao Palácio do Planalto, a senadora e atual ministra do Planejamento, Simone Tebet (MS). Isso credenciou o senhor a ter novamente acesso e articulação junto ao governo federal?

Geddel Vieira Lima –  Olha, eu pessoalmente não lutei para que o apoio fosse dado ao presidente Lula e ao governador Jerônimo Rodrigues (PT) para facilitar um eventual acesso meu aos governos federal e estadual. Eu achava efetivamente que, do que estava posto, o presidente Lula representava a melhor alternativa, como na Bahia a continuidade do projeto do PT, iniciado por Jaques Wagner e continuado por Rui Costa, merecia ter sequência com Jerônimo, que, nas conversas que tive com ele, me pareceu um sujeito simples e extremamente bem intencionado. Achei as duas melhores alternativas e lutei para que essa fosse a posição do MDB. Não busquei credenciamento pessoal até porque não estou na disputa política eleitoral no sentido mais direto, público.

Mas a pergunta não foi no sentido de que essa tenha sido a intenção, mas sim uma consequência…

Evidentemente que quando se ganha a eleição é claro que minha interlocução está facilitada, porque ajudei de alguma forma mínima na vitória.

De que forma essa interlocução tem ocorrido, no caso do governo federal?

Sempre que necessário troco ideias, emito opiniões, me posiciono, levo problemas, faço pontes com prefeitos, falo com deputados, milito na política, no bastidor. Estou fazendo o que fiz a minha vida toda, colocando minha experiência na causa.

Publicamos na semana passada que o MDB pleiteia o comando do Dnit, órgão do governo federal subordinado ao Ministério dos Transportes, comandado por um quadro do partido do senhor, o senador licenciado Renan Filho (AL). Essa negociação passa pelo senhor? A indicação caberá ao deputado federal Ricardo Maia, o único parlamentar eleito pelo MDB baiano na Câmara?

Estou numa fase da minha vida em que a gente precisa rasgar todas as fantasias das hipocrisias. Então vamos parar com essa história de explicar porque indicar cargos. Evidentemente que o MDB da Bahia tem a pretensão de ter participação no governo que ajudou a eleger. É através dessa participação que colocamos em prática políticas claras e objetivas que, beneficiando as pessoas, tragam retorno e reconhecimento. O deputado Ricardo Maia teve uma votação expressiva. É representante do MDB na Câmara e integra a bancada federal. Nada mais natural que ele possa apresentar um nome qualificado e que passe pelos critérios exigidos pelo governo para ocupar a superintendência do Dnit, que é um órgão ligado diretamente a um ministério exercido por um quadro do MDB, amigo pessoal meu, que é o senador Renan Filho.

O ministro Renan é um dos membros do governo Lula com os quais o senhor mantém uma interlocução?

Falo sim com o Renan, com o ministro das Cidades, Jader Filho (MDB-PA), tenho conversado com o presidente (nacional) do MDB, (Baleia) Rossi (SP), com o ex-presidente Michel Temer (SP). Tenho amigos de 30, 40 anos com quem, em nenhum instante, rompi relações, apesar de muitos acharem, e encaro isso com senso de humor, que qualquer pessoa pode entrar, se imiscuir, no meio de uma relação de 40 anos.

Tem conversado com o ex-governador e ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT)?

Com Rui não tenho conversado muito, embora tenha boa relação. Eu estive perto daquele lugar (Casa Civil) e aquilo ali é uma máquina de moer carne. Às vezes você recebe uma ligação e pode retornar quatro dias depois. Já conversei muito com o senador Jaques Wagner (PT) e sempre que preciso conversar sou atendido por todos.

O senhor tem atuado para ajudar o governo Lula a construir maioria no Congresso?

Tenho procurado ajudar o governo e tenho manifestado divergências objetivas com coisas que acho equivocadas no governo, como, por exemplo, essa medida de modificar Conselho de Administração de Recursos Fiscais (Carf), que passa a sensação de que o governo está com uma visão meramente arrecadatória. E tenho aplaudido muitas outras iniciativas do governo, como, e essa é uma questão importante, a defesa da propriedade privada, como define o artigo quinto da Constituição. Cabe ao Estado brasileiro, através do governo, fazer a reforma agrária em áreas improdutivas e que tenham de cumprir a função social da terra.

Falando no assunto, o senhor é a favor de CPIs para investigar as invasões do MST, propostas tanto na Câmara Federal quanto na Assembleia Legislativa da Bahia?

Eu acho que CPI do MST é uma bobagem. Acho que o movimento que deveria se contrapor ao MST é um que devemos criar chamado de MDC, o Movimento da Defesa da Constituição. O governo tem que fazer a reforma agrária na propriedade improdutiva e defender a propriedade privada contra invasão ou ataque, seja ela rural ou urbana.

E a CPI dos Atos Antidemocráticos do dia 8 de janeiro? O governo Lula recuou e agora é a favor, depois do vazamento de imagens do Palácio do Planalto que resultou na queda do então ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Marco Edson Gonçalves Dias.

Isso tudo é política. Eu conheço o general Dias há muito tempo. É um homem correto, sério, que mostrou o estilo dele na Bahia de ser um homem de diálogo, quando da invasão da Assembleia Legislativa (na greve da Polícia Militar de 2012). Ele estava ali no Planalto, no meu entendimento, porque soube da invasão, e estava lá pedindo para as pessoas se retirarem. Mas hoje é o momento em que tudo está politizado, vira extremismo, e estamos perdendo a oportunidade de crescer. Essa foi uma das divergências que tive com o presidente Lula. Ele devia ter chamado os ex-presidentes vivos, colocados todos numa mesa e dito: “não tem palanque agora, vamos tentar construir o pais”. Quem quisesse ficar de fora se excluísse da fotografia. Erra o presidente quando fica a uma altura dessas falando de golpe do Temer, batendo no Bolsonaro.

Esses superblocos formados na Câmara e que reúnem diversos partidos muitas vezes ideologicamente diferentes ajudam o presidente? O MDB optou por não ficar no que foi arquitetado pelo presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL).

É do jogo parlamentar da própria Câmara, que faz parte da disputa de espaços. O que falta ao presidente é falar mais com a população de forma direta. Na minha ótica, está na hora de o presidente dizer: “peguei o país com problemas graves e preciso aprovar um arcabouço fiscal, que estou mandando para a Câmara e esse é o meu papel”. Joga a responsabilidade para cima do Congresso. Caso contrário, a cada proposta fica a especulação de negociação individual, do toma-lá-dá-cá, emenda parlamentar, e esse é um modelo que com tudo que aconteceu nos últimos anos ficou comprovado que não deu certo, que destruiu empresas, vidas, famílias. Claro que tem de negociar sempre, mas nessa intensidade que vemos na mídia me remete a um modelo exaurido.

No início do governo, o senhor criticou a aproximação de Lula com o União Brasil, que ficou com três ministérios e cujo líder, o baiano Elmar Nascimento, até outro dia adversário ferrenho do PT, deve manter o controle político da Codevasf. Ainda considera um erro do presidente?

Eu acho que esse é um equívoco não por conta do deputado Elmar ou por quem quer que seja. Esse é um equívoco que engana a democracia. A democracia tem um princípio básico: quem ganha governa, quem perde faz oposição. Na medida em que você cria essa cultura de que quem perde logo depois, em nome da tal governabilidade, pressiona para ter espaço no governo de quem ganha você está iludindo a democracia, você está enganando o povo, fazendo com que não seja mais necessária a disputa. Quem perdeu que faça oposição, que critique, sugira, crie dificuldades, crie problemas para quem ganhou e se credencie para a próxima eleição.

Mas o presidente Lula foi eleito sem fazer maioria no Congresso. Como governar sem negociar a adesão de partidos e/ou parlamentares?

Claro que tem como governar. Você governa com quem venceu a eleição, com você mandando as propostas para a sociedade, convocando cadeia de rádio e TV e dizendo o seguinte: “estou mandando para o Congresso essa proposta que tem essas, essas e essas vantagens, e o Congresso agora tem que aprovar ou dizer que não aprova e apresentar alternativas”. Se não aprovar, o país entra num caos e o problema é do Congresso. Isso significa negociar também, mas tem parâmetros de negociação. O que não pode é ficar fazendo essa mistura que tira da sociedade a noção de quem ganhou ou perdeu a eleição. É pragmatismo demais. Já deu errado. Antes que alguém levante uma bandeira e queira colocar em minha mão como hipócrita, o que quero dizer é que eu vivi o erro, e por isso tenho autoridade para dizer que está errado.

Tem gente que acredita numa aproximação política entre o prefeito Bruno Reis (União) e o presidente Lula. Há, inclusive, especulações de que o prefeito poderia ser apoiado por Lula na disputa pela reeleição, principalmente se houver uma divisão do grupo liderado pelo ex-prefeito ACM Neto (União). Acha isso crível?

Não creio. Não vejo essa chance, essa hipótese. Isso seria o fim da política. Existem divergências ideológicas, pois Bruno está num campo e o PT está em outro campo. O que temos de fazer no nosso campo é começar a afunilar as conversas internas para chegarmos numa candidatura e fazer o confronto. Ganhar ou perder faz parte da eleição. Agora dúvidas existenciais na hora de apresentar o candidato é que não podem existir, nem vontades hegemônicas, nem falta de sinceridade na hora das conversas.

O senhor, que até o início do ano passado era aliado, hoje tem algum tipo de relação com Bruno Reis?

Não tenho nenhuma relação política com Bruno, mas não tenho nenhum impedimento pessoal de conversar com Bruno. Eu aprendi com o doutor Ulysses Guimarães, com quem tive a honra e o privilégio de conviver, que a raiva em política só deve existir se for fingida ou combinada. Então, o limite do estremecimento de uma relação é a ofensa pessoal. Bruno Reis nunca me ofendeu pessoalmente, e nem eu a ele. Eu nunca ofendi pessoalmente o ACM Neto, e nem ele a mim. Portanto, não tem motivo de impedimento de conversas – o que não significa comprometimento, apoio político ou projeto conjunto.

Ao anunciar o rompimento com o grupo de ACM Neto antes das eleições de 2022, o MDB alegou, por meio das suas lideranças, que não era bem tratado. Essa insatisfação era antiga, uma vez que a aliança durou dez anos?

O rompimento se deu por uma série de comportamentos do grupo que não reconhecia a importância do MDB. Na eleição de 2018, quando enfrentávamos dificuldades pessoais por conta da Lava Jato e companhia, não quiseram sequer a coligação proporcional com o MDB, tirando do partido uma vaga de deputado federal, no caso a de Lúcio Vieira Lima, que teve mais votos no auge daquele turbilhão do que muitos que foram eleitos. E se disserem que a questão foi ética é mentira. Tanto que dois anos depois a nossa situação estava mais agravada e foram nos pedir o apoio a Bruno Reis (na eleição municipal de 2020).

E mais uma vez mostrando que a questão não era ética – e aí sim boto a bandeira da hipocrisia na mão de cada um que ouse apontar o dedo para mim, para Lúcio ou para quem quer que seja do MDB, pois ninguém tem autoridade para isso -, em 2022 meu apartamento transformou-se na Basílica do Bonfim. Era romaria pedindo apoio e eu era o mesmo Geddel de 2018. Então, na hora em que o interesse político falou, deixou-se de ter o suposto preconceito ético.

Rasgando essa fantasia, foi mais interessante para o crescimento do partido, a confiabilidade, reatar a aliança com o PT, que foi equivocadamente rompida em 2010, e aí não sei se por culpa minha, de Wagner, do PT, do MDB, do destino… Talvez a culpa tenha sido pelo fato de eu ter 22 anos a menos.

O senhor rompeu em 2010 por que decidiu ser candidato a governador contra Jaques Wagner, correto?

Isso. Foi equivocadamente rompida (a aliança). Até para ser sincero, mesmo que não saiba ainda de quem seja a culpa, tivemos problemas de lado a lado que não vale especificar aqui nesta conversa, mas faço o mea-culpa de público e não vejo problemas nisso.

Apesar disso, Wagner foi o principal responsável pela retomada da aliança entre o MDB e o PT, correto?

Foi, foi. Temos uma relação de muito tempo, que, apesar de 2010, não houve atrito pessoal. Confio nos compromissos que ele assume e acho que ele também confia em mim. Ele sabe quando não gosto de uma coisa, e eu sei quando ele não gosta. Eu sei quando ele está dando banho, sem resolver as coisas, empurrando com a barriga, porque nos conhecemos e há relação de confiança.

Acha que Bruno Reis pode ser preterido de disputar a reeleição em favor de ACM Neto, que é o nome mais forte do grupo adversário ao seu hoje?

Eu acho que vai depender de como eles conseguirem dividir os interesses lá da Prefeitura, representados pelas cabeças dos dois grupos, e isso já foi abordado na campanha. E também vai depender do grau de dificuldade que Bruno encontrar na hora em que começarem as pesquisas, as articulações. Eles vão fazer o que for possível para não perder a Prefeitura, e aí o céu é o limite.

O senhor se encontrou há alguns dias com ACM Neto, na missa em memória do tio dele, Luis Eduardo Magalhães. Conversaram muito?

Luis Eduardo era um amigo querido e que tinha uma qualidade que aprecio e costumo preservar: a de manter em pé o que diz sentado. Ele cumpria acordo. Era meu dever estar lá e abraçar a família. Estive com o ex-prefeito sim, cumprimentei ele, trocamos breves palavras, mas nada além de um encontro social.

Era difícil ter uma relação de amizade com Luis Eduardo e ao mesmo tempo ser inimigo político e pessoal do pai dele, o falecido senador Antonio Carlos Magalhães?

Luis Eduardo era um cara mais abrangente e sempre deixou de fora a briga mais dura que eu tinha com o pai dele, pois achava que não devia envolver a nossa geração. Eu gostava muito de Luis, nos dávamos bem, saíamos domingo à noite para comer pizza em Brasília, trocávamos ideias. Ele era um homem diferenciado do ponto de vista pessoal e político. E tinha autoridade, de modo que o pai não se metia na nossa relação, pelo menos não que chegasse ao meu conhecimento. E foi até por conta da minha relação com Luis Eduardo que amenizou um pouco (a briga com ACM). Eu pelo menos passei a cumprimentar o velho, dava bom dia, boa tarde, coisa que não fazia antes.

Seu irmão Lúcio Vieira Lima tem dito que o vice-governador Geraldo Júnior (MDB) é o nome de maior potencial para disputar as eleições para a Prefeitura de Salvador em 2024. O senhor concorda?

É evidente que o MDB, como qualquer outro partido, gostaria de ter um nome representando o partido em Vitória da Conquista, em Feira de Santana, em Salvador, em Itabuna. Agora ninguém ganha eleição sozinho, sobretudo uma eleição complexa como Salvador. O MDB não tem pretensão hegemônica e também não apoiará pretensão hegemônica. Temos rapidamente que ter critérios objetivos de construção política para apresentar uma candidatura em Salvador e não ficar inventando história de ter duas ou três candidaturas para levar ao segundo turno. Pronto, é o que eu defendo.

Se o nome for o de Geraldo, ele terá do MDB total, integral e absoluta carta branca para fazer articulações que possam levar o grupo à vitória. Ele tem características que o qualificam: faz política em Salvador, foi vereador da cidade, presidente da Câmara, conhece os problemas locais e é vice-governador. Mas para isso evoluir a uma candidatura é preciso que essas qualificações sejam encaradas por todos do grupo liderado por Jerônimo.

O que importa para a gente é ganhar a eleição de 2024, que é um passo para a eleição que vai acontecer em 2026. Agora é conversar e não ficar inventando. Vamos fazer política e não bancar o cientista político e ficar dando ideia. Não ficar plantando notícia e inventando moda. Não dá para ficar inventando uma Major Denice todo dia. Colocar uma candidatura agora como pretensão objetiva cria dificuldade para o início do diálogo sadio. E nem o MDB e nem Geraldo colocam isso.

Nesse sentido que o senhor criticou recentemente, em conversa com este Política Livre, a decisão da Executiva municipal do PT de lançar três nomes para a disputa em Salvador?

A crítica está consolidada no que digo em relação ao MDB. Ter pretensão é legítimo, mas é contraproducente se reunir dizendo que vai apresentar nome. Isso é contra o diálogo sadio, é contra a construção de um consenso em torno de um nome.

Na eleição de 2022 o senhor ficou longe dos atos públicos de campanha. Isso se deu por conta dos problemas que o senhor enfrentou na Justiça? E mais: a vitória representou uma espécie de redenção após tantas críticas que sofreu por ter retornado em liberdade aos bastidores da política?

Não participei da eleição buscando redenção. Tenho a exata noção dos problemas que enfrentei, que enfrento e que ainda irei enfrentar. Participei porque é uma vocação da minha vida. Participei sem limitações, a não ser aquelas impostas pela saúde. Não fui a palanques e encontros porque estava com um problema seríssimo, andando de bengala, que culminou numa cirurgia em 28 de fevereiro deste ano, em Salvador. Implantei uma prótese no joelho em um procedimento que teve uma intercorrência grave, chegando a ocasionar uma parada cardíaca, episódio que estou contando a você em primeira mão. Tive que ser entubado e passar por massagem cardíaca fruto de uma operação no joelho.

Ainda estou em fase de recuperação, fazendo fisioterapia. Esse problema de saúde foi o que me limitou a ter uma participação mais física na campanha. Participei como pude, dando entrevista, opinando nas redes sociais. Se alguém tinha uma expectativa de que eu desse apoio escondido, envergonhado, não buscasse o nosso apoio, até porque digo sempre e repito: Lula foi eleito presidente pela terceira vez e passou pelo mesmo lugar que passei, a diferença foi de dias. Então a sociedade como um todo é mais generosa do que uma elite de corajosos anônimos da internet.

Hoje o senhor é conselheiro de Jerônimo?

Rapaz, se tivesse capacidade de aconselhar o governador eu era o governador e ele o conselheiro. Eu tenho opiniões e emito opiniões. Por exemplo, eu acho que nós temos, e o governador está atento, que reforçar mais essa questão da segurança pública, ter mais inteligência, mais policiamos ostensivo, dar mais tranquilidade ao policial, deixando claro que não queremos uma polícia violenta, mas em caso de confronto o policial terá toda cobertura do Estado para exercer seu papel. Não tenho dúvidas de que Jerônimo fará um grande governo na Bahia. Trata-se de uma pessoa com características fantásticas, um homem simples, humilde e que tem uma capacidade impressionante de ouvir, aceitar sugestões e críticas.

Em 2022, vimos que alguns prefeitos do MDB, a exemplo daqueles que governam as cidades de Feira de Santana (Colbert Martins), Itapetinga (Rodrigo Hagge) e Xique-Xique (Reinaldo Braga Filho), contrariaram o partido e apoiaram ACM Neto. Em 2024, a sigla via permitir alianças nas disputas municipais com o grupo do ex-prefeito?

Não discutimos isso. Mas, a princípio, não acho que seja confortável termos candidatos do MDB vinculados a candidatos do Democratas (União Brasil) e partidos de oposição ao governo. É uma coisa meio incoerente do ponto de vista do discurso. Isso já foi possível no passado, mas acho que hoje, se pudesse haver consenso na base do governo para isso não acontecer, seria extremamente interessante. Claro que não vai ser o MDB o cavalo do cão que vai tomar uma atitude individualizada. Se o governador Jeronimo achar que é possível liderar isso dentro da base dele acho que seria o ideal.

Dos prefeitos que votaram com ACM Neto, o que criou mais problemas para o partido talvez tenha sido Colbert. Ele vai seguir no MDB?

Colbert sempre foi um amigo querido meu. Quando ele estava sem mandato costumava ficar lá no meu apartamento funcional. Sempre tivemos uma relação muito boa. Depois, as circunstancias políticas de Feira e o desejo de fazer Colbert chegar à Prefeitura fizeram com que Colbert caísse no colo de José Ronaldo (União). De novo política.

Lá atrás, quando defendi a aliança do MDB com Luis Eduardo Magalhães (na disputa para o governo de 1998), resgatando a história, Colbert saiu por conta disso e foi para o extinto PPS. Já quando a circunstancia de se aliar ao carlismo foi conveniente, como em 2022, ele não saiu do MDB e ficou no partido defendendo a tese dele. Portanto, o que está se fazendo é política, e não é ética, não é ideologia.

Ainda no pleito de 2022 tive com Colbert em minha residência e eu fiz de tudo para ele lançar o irmão Evaldo (Martins) candidato a deputado federal. Ele não teve a capacidade de viabilizar isso num município com mais de 400 mil eleitores, sendo o prefeito. Além disso, falei a ele que o MDB tem tradição de compreender as realidades municipais e que ele mantivesse a posição dele, a briga dele com o deputado Zé Neto (PT), discreta. Mas Colbert quis uma posição de confronto, que continuou em relação ao governo do Estado mesmo depois da eleição. Mas não vamos expulsar Colbert. Ele é um filiado como qualquer outro que exerce o cargo de prefeito em fim de mandato e não tem controle sobre o diretório municipal do partido.

O senhor já pagou pelos erros que cometeu no passado e que resultaram numa condenação e prisão?

Eu estou em liberdade, fazendo o que gosto, que é política. Eu não vou ficar repetindo isso, já disse publicamente, tenho pago todos os preços que a sociedade me cobrou através do Judiciário. Eu tive uma condição até hoje que foi evitar falar sobre o tema especificamente para evitar tocar, ainda que inconscientemente, em terceiras pessoas, machucar terceiras pessoas que participaram do processo político comigo. Então, o que aconteceu é público e notório.

Eu tenho a consciência plena de que serei sempre criticado, vejo gente criticando porque estão me dando voz. Eu digo sempre que não procuro falar com ninguém. Se as pessoas procuram falar comigo é porque tem gente que quer me ouvir. E tenho tido sempre um tratamento muito respeitoso e carinhoso por onde passo. Então, não tenho mais o que conversar sobre isso. Está aí para o julgamento da história. O meu sofrimento e a minha agonia eu purgo de forma solitária, como fiz e enfrentei todo o processo, carregando a minha cruz sozinho.

Política Livre