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No último dia 11, duas lideranças ligadas à maior facção criminosa do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC), foram transferidas do Conjunto Penal Masculino de Salvador para uma unidade de segurança máxima, no município de Serrinha. A medida se deu para evitar que os ‘chefões’ do crime, identificados como Antônio Dias de Jesus, o Colorido, e Eric Santos Argolo, vulgo Loirinho, colocassem em prática o plano de expansão da organização criminosa dentro e fora do sistema penitenciário.

As investigações do Ministério Público (MP-BA) apontaram que os detentos, mesmo atrás das grades de um presídio que possui bloqueadores de sinal, continuavam se comunicando por meio de um aparelho celular com internos de outras unidades e o ‘extramuros’. Na ocasião, um celular foi apreendido.

Segundo uma fonte do Portal A TARDE, ligada às operações especiais, Colorido é considerado um dos ‘cabeças’ do Bonde do Maluco, ocupa o cargo de ‘Torre’ na hierarquia do PCC e é uma importante peça no esquema da organização criminosa.

“Ele fazia contato com o PCC para viabilizar a logística de envio de drogas e armas para a Bahia. Colorido era o ’01’ e mantinha contato com outros presos e criminosos do PCC em São Paulo, inclusive, há relatos que até de fora do país e dava ordens de cometimento de várias práticas criminosas para as lideranças das localidades que estão soltas”, relatou.

Além da expansão dentro das unidades prisionais, ‘Colorido’ também seria responsável por ordenar ataques em regiões comandadas pela facção rival ligada ao Comando Vermelho (CV). O ’01’, que, já dentro do sistema prisional, havia sido alvo de outras duas operações integradas, foi flagrado fazendo uso de um aparelho celular dentro de sua cela, o que motivou sua ‘mudança de endereço’ para impossibilitar de vez a comunicação do interno.

“Apesar de estar numa unidade prisional relativamente segura, ele estava com o aparelho de celular e foi o que motivou a sua transferência. Durante uma operação do GAECO, juntamente com a SEAP, ele foi flagrado durante a noite de um domingo utilizando aparelho celular dentro da própria cela”.

Já a outra liderança, que também foi alvo da segunda fase da ‘Operação Torre’, não ocupa o mesmo cargo na hierarquia da facção, porém, era responsável por comandar as ações do tráfico em uma das maiores regiões da capital baiana. “Ele é considerado uma liderança local, mais especificamente, nas localidades de Brotas, Matatu de Brotas, Alto do Saldanha, Engenho Velho de Brotas, aquela região toda ali é de responsabilidade de Loirinho”.

Loirinho era considerado o braço direito de Colorido dentro do sistema prisional. Assim como seu chefe, ele também foi flagrado usando um celular. Extrações telefônicas mostraram que o aparelho era usado para manter contato com vários traficantes dessas localidades.

“Antes de falar com o colorido tinha que falar com ele [Loirinho], então um trabalho conjunto do GAECO, com a SEAP e com a Polícia Civil conseguiram substanciar a materialidade de que ele estava se fortalecendo e que ele precisava ser retirado daquele local para a partir daí ficar realmente sem comunicação em um lugar mais de maior vigilância”, completou.

‘Quadrilha da Tornozeleira’

Ao lado de Averaldo Ferreira da Silva Filho, o Averaldinho, e uma terceira liderança, conhecida como Medina, Colorido havia sido alvo da Operação Hégira, no dia 20 de maio. As investigações apontaram que, juntos, eles foram responsáveis por ao menos oito homicídios cometidos recentemente na capital baiana. Entre eles, o homem encontrado morto num isopor, no bairro da Barra, em Salvador, em julho do ano passado.

Além de lideranças nas ruas, como Augusto César dos Santos Barbosa, conhecido como ‘China’, a organização ainda usava ‘tornozelados’ como forma de se comunicar e colocar em prática suas ordens. “Verificamos que mesmo dentro do sistema prisional, eles, usando pessoas que estavam ou com a tornozeleira, ou estavam em liberdade, continuavam a praticar os crimes pelos quais eles foram presos. Desenvolveu-se a operação, conseguiu-se identificar quase toda a rede de operadores deles fora da unidade prisional. A partir daí foram solicitados os mandados e a gente fez os cumprimentos hoje”, explicou, na ocasião, o delegado Alexandre Galvão – Draco.

De fora do estado, CV manda matar na Bahia

A dificuldade para ‘silenciar’ as lideranças criminosas que estão dentro do sistema carcerário, não é uma problemática enfrentada apenas pelas autoridades na Bahia. Na última terça-feira, 18, duas lideranças criminosas, consideradas ‘cabeças’ do Comando Vermelho (CV), rival do PCC, foram alvos da Operação Unum Corpus. Os dois estavam custodiados no Complexo de Bangu, no Rio de Janeiro, porém isso não impediu a orquestra de ataques e ordens diretas para a execução de rivais e outras pessoas no município de Teixeira de Freitas e regiões circunvizinhas.

Além da dupla no Rio, três chefões estavam em presídios em Uberlândia, em Minas Gerais. Outros mandados ainda foram cumpridos nos estados do Espírito Santo e Rio Grande do Sul, além dos municípios baianos de Feira de Santana, Santo Antônio de Jesus, Jequié, Itabuna, Juazeiro, Eunápolis e Teixeira de Freitas. Ao todo,54 mandados foram cumpridos pelos crimes de homicídio, tentativa de homicídio, organização criminosa, porte de arma de fogo, tráfico, estupro, roubo e receptação.

Apreensões e investimentos

As ações integradas entre Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização do Estado da Bahia (Seap) , Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA) e Ministério Público (MP-BA) resultaram em pelo menos 1.264 aparelhos celulares apreendidos só entre os meses de janeiro e maio de 2024, dentro dos presídios na Bahia. Mesmo sendo um número expressivo, a contagem é bem menor do que as apreensões no mesmo período do ano passado, quando foram contabilizados 3.172, ou seja, uma redução de mais de 150%, que seria explicado pelas ações preventivas para evitar que esses materiais cheguem até as mãos dos internos.

De acordo com os números que o Portal A TARDE teve acesso, só este ano, o Governo do Estado está investindo R$ 159 milhões para serem usados em reformas nas unidades e construções de áreas de apoio nos presídios. Esses ajustes devem dificultar uma das modalidades mais usadas para o envio destes aparelhos celulares para os internos.

“Fizemos a instalação de raio-x em praticamente todas as unidades do complexo da Mata Escura. Estamos também adquirindo Scanner Corporal para todas elas, além de fazer o telamento. A gente sofria com sucessivos arremessos. Os indivíduos vinham de fora, da avenida Gal Costa, agora estamos investindo em um muro que está sendo construído, que era uma parte da mata atlântica, é aberta, e os indivíduos tinham acesso. Eles entravam próximo e faziam arremesso para seus pares que estavam presos (drogas, bebidas, facas, celulares etc) e a gente começou a telar todas as unidades, ou seja, colocar telas na parte superior e isso reduziu a quase zero os arremessos”, disse o superintendente de Gestão Prisional (SGP), Luciano Teixeira Viana. Desde janeiro do ano passado, a Seap já vem investindo mais de R$ 43 milhões entre câmeras corporais, Body Scan, armamentos e outros serviços. A Tarde