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Ao chegar no Terminal Marítimo de São Joaquim na manhã desta sexta-feira (5), a movimentação rápida dos passageiros rumo a parte interna do local indicava a proximidade do horário de embarque no Ferryboat Maria Bethânia, previsto para sair às 11h. Ainda faltavam 20 minutos e a fila de carros estava pequena – seu fim dava na entrada do Terminal – bem diferente do alto fluxo dos últimos dias de 2023. A reportagem embarcou para conferir de perto as condições da travessia Salvador – Itaparica e Itaparica – Salvador.

O primeiro passo dessa jornada foi a compra do bilhete que dá acesso ao transporte marítimo. No grande espaço reservado para filas e organizado por corrimãos, o calor fazia com que as pessoas – que não paravam de chegar para embarcar às 11h – passassem constantemente a mão no rosto para aplacar as gotas de suor. O grande toldo que cobre o local, assim como a falta de aparelhos para a ventilação, também não ajudavam a diminuir os efeitos da temperatura.

Para o alívio e certa surpresa de todos, uma vez que só havia dois guichês em funcionamento dos seis instalados ali, a fila de pedestres andou depressa. Em cerca de cinco minutos, o bilhete unitário foi adquirido por R$ 6,50, valor vigente de segunda a sexta – aos sábados, domingos e feriados, a tarifa custa R$ 8,60.

Já no caminho para o Ferryboat, chamou atenção a sujeira em todo o trajeto. Desde o local reservado para a fila de pedestres, era possível notar o chão poluído com fragmentos de papéis, embalagens, bagas de cigarro, tampinhas e derivados. A má higiene, questão apontada por passageiros como o principal problema do sistema de transporte operado e administrado pela Internacional Travessias (IT), deu as caras na embarcação logo na entrada. Nas laterais do modal, onde os passageiros se espremem entre carros, caminhões e motocicletas para subir as escadas em direção aos andares com assentos, a sujeira se misturava aos desgastes da estrutura enferrujada do ferry.

Acostumada a fazer a travessia pelo menos duas vezes na semana, a aposentada Dalva Luciano, 75 anos, preferiu ficar sentada em um dos poucos assentos na parte térrea do modal, ao lado dos carros, por conta da falta de higiene nos andares superiores. “O que não falta são baratas miúdas lá em cima. Já ocorreu de eu ir ao banheiro e voltar sem usar, porque até fezes tinha nos sanitários. E todos os ferries são assim, até o que era mais ampliado e tinha lanchonete [Zumbi dos Palmares]. Eu mesma não compro lanche lá, prefiro comprar na mão do ambulante”, afirma.

Outra queixa de Dalva é quanto à ausência de profissionais de limpeza durante a operação do ferryboat. Segundo ela, antes era comum ver um funcionário passando pano no chão, mas agora isso se tornou raridade. “Eu fico sem palavras. Acho que muito descaso do governo, que só faz botar material, mas quem que zela? Reclamamos, mas ninguém resolve nada”, desabafa.

No tempo em que a reportagem passou na embarcação, de fato nenhum profissional de limpeza foi visto. A sujeira no espaço, no entanto, serviu para uma ambulante usar o problema como estratégia de marketing para vender produtos de limpeza. “Com esse produto, passou o pano e veja só como ficou o chão do ferry verde, limpou a sujeira e até mudou de cor”, anunciava enquanto esfregava o pano no chão e mostrava o resultado aos passageiros.

Na escada de acesso para a parte superior, o odor de urina estava impregnado nos degraus. Em compensação, ao chegar no primeiro andar o chão tinha um aspecto maior de limpeza. Um ponto positivo observado foi a localização dos coletes salva-vidas, que podiam ser encontrados tanto no centro do espaço quanto nas suas laterais. Por ali, o único problema que chegava a incomodar os passageiros era o calor e os assentos pouco confortáveis e com alguns rasgos.

Não à toa a estudante de Belas Artes, Jade Bianca, 22 anos, preferiu ficar na área externa apreciando a vista com a namorada, a negociadora jurídica Luciene Mota, de 30 anos. “Não tem circulação de ar, é tudo muito fechado na parte interna. Lá embaixo estava sem cabimento e, ainda assim, aqui em cima estava muito calor. Eu tive que sair da cabine para ficar do lado de fora”, diz.

No fim do corredor do primeiro andar, o lugar mais temido pelos passageiros: o banheiro. Lá, a primeira coisa observada é que não havia mau cheiro, mas o chão e as paredes estavam com aspecto de desgaste profundo. As três pias dispostas para lavagem estavam presas em partes enferrujadas da parede e o dispenser para usar o sabonete estava vazio. Por outro lado, a lixeira estava bem conservada e o secador de mãos estava funcionando normalmente.

Por sua vez, os sanitários causavam receio. Em um deles, a ferrugem havia tomado conta de mais da metade da tampa. Ao redor da base, o chão estava descascado e sujo. Não havia papel higiênico nas cabines, sendo preciso pegar o papel na entrada do banheiro, mas a quantidade existente lá era insuficiente. A prova disso é que quando a aposentada Graça Borges, 65 anos, precisou usar o sanitário saiu de lá inconformada.

“Não tem papel e sabão para lavar as mãos. Eu não sei por que milagre tem água, porque também costuma não ter quando eu pego. Toda vez que eu venho é assim, mas tem piores do que o Ferry Maria Bethânia. Falta limpeza, o banheiro não é lavado, tem muita ferrugem. Fico até com medo de entrar”, admite.

Localizada perto dos banheiros, a lanchonete do Ferryboat é a salvação para matar a fome de quem passa horas viajando. No local, bebidas, salgados e bombonieres são vendidos por até R$15. Para sanar a sede e para manter a energia, a água mineral sem gás custa R$ 3 e um café expresso custa R$5, respectivamente. No ramo dos salgados, a pizza é vendida por R$ 10 e um sanduíche de picanha por R$ 15.

Com uma hora de duração estimada, a travessia Salvador – Itaparica foi pontual. No momento do desembarque, a falta de acessibilidade ficou evidenciada quando passageiros que andavam com muletas tiveram dificuldade para descer as escadas – não havia sequer uma rampa de acesso aos andares superiores. Inclusive, os banheiros para pessoas com deficiência, no Ferry Maria Bethânia, existem apenas na parte térrea, mas são utilizados por pessoas sem deficiência. Não havia, no local, nenhum profissional da IT ou da Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia (Agerba) para fiscalizar tal uso.

Diferente do Terminal Marítimo de São Joaquim, em Itaparica, havia uma profissional fazendo a limpeza da área reservada à fila de pedestres, que estava bastante suja. O banheiro feminino do local estava preservado e funcionando corretamente com sabão para lavar as mãos e papel higiênico. Apenas as cabines dos sanitários estavam em mau estado, com lixo transbordando das lixeiras e papel em cima dos vasos sanitários.

Na fila para comprar o bilhete para a travessia Itaparica – Salvador, os passageiros precisaram aguardar cerca de 20 minutos para serem atendidos, já que apenas dois dos seis guichês estavam funcionando em Bom Despacho.

No caminho para encontrar um assento no Ferry Maria Bethânia – mais uma vez –, previsto para sair às 13h, algo que quase passou despercebido pela reportagem chamou atenção no percurso de volta. Um cartaz, situado na lateral da embarcação, sinalizava que era proibido que os viajantes fizessem a travessia dentro dos veículos. Contudo, pelo menos 20 pessoas, contabilizadas pela reportagem, fizeram o percurso inteiro de maneira irregular. Embora houvesse funcionários da IT no modal, não foi feita fiscalização ou tentativa de esclarecimento.

No porão da embarcação, havia quatro ar-condicionados na área que já é considerada o refúgio do pescador Antônio Nascimento, de 51 anos. “Chego a pegar ferry três vezes na semana. É muito atraso, muita espera, os banheiros e os assentos sujos. Eu venho sempre para essa parte aqui embaixo porque não aguento a sujeira e o calor”, conta.

Com três minutos de atraso, o Ferryboat atracou no Terminal Marítimo de São Joaquim às 14h06. Um pouco antes da saída, o turista carioca Paulo Stewart, 59 anos, avaliou sua experiência no transporte, numa escala de 0 a 10, com 3,5.

“Acho que pode melhorar muito. Para comprar o bilhete, tem uma fila de 40 ou 50 pessoas com dois guichês abertos que não têm troco. O ferry é um equipamento antigo, mas poderia estar mais bem cuidado no que se refere à aparência, limpeza e a área interna, que é um forno. Poderia ter ventiladores ou uma ventilação cruzada. A melhor parte da viagem é a vista e poderia ter um banco aqui fora. Eu adoro a Bahia, mas o ferry não é uma boa experiência”, finaliza. Correio da Bahia