Foto: João Régis / Arquivo Pessoal

Um estudo conduzido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) aponta que a população mais pobre do Brasil tem duas vezes mais chances de ter sido infectada pela Covid-19 do que a população mais rica. Além disso, os indígenas, por causa da pobreza, também têm mais chances de serem infectados. As conclusões foram publicadas na quarta-feira (23) na revista científica “The Lancet”, uma das mais importantes do mundo.

Os cientistas também apontam que, com base nos dados coletados em maio e em junho, apenas um a cada dez casos da doença no país foi oficialmente notificado. “Os 20% mais pobres da população tiveram o dobro do risco [de contaminação] que os 20% mais ricos – mesmo a pandemia tendo chegado ao Brasil pelos aeroportos, por pessoas de maior nível socioeconômico”, avalia o epidemiologista Pedro Hallal, reitor da UFPel e primeiro autor do estudo.

“Quando começa a espalhar na comunidade, atinge os níveis mais pobres da população”, diz Hallal. A pesquisa é o resultado das duas primeiras análises feitas na EpiCovid, o maior estudo epidemiológico sobre o novo coronavírus (Sars-CoV-2) no país, liderado pelos cientistas da UFPel. O objetivo do estudo é analisar a proporção de pessoas com anticorpos para a Covid-19 no Brasil.

Para isso, em um intervalo de duas semanas, aproximadamente, os pesquisadores fizeram testes sorológicos em cerca de 30 mil pessoas em 133 cidades do país, em todos os estados. Na primeira etapa, foram testados 25.025 participantes, entre os dias 14 e 21 de maio. Na segunda, outros 31.165, entre os dias 4 e 7 de junho.

“Nesse momento, que reflete de maio a junho, existiu uma concentração muito grande no Norte. Algumas cidades, como Breves (PA) e Boa Vista, tiveram um percentual altíssimo da população infectada – chegava a 25%”, aponta Hallal. Ao todo, segundo os cientistas, foram identificadas 11 cidades ao longo do Rio Amazonas em que cerca de 25% das pessoas tiveram resultados positivos para anticorpos contra o Sars-CoV-2. G1