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O estudante Raphael Souza, 23, não estava contente com os rumos que a graduação em engenharia da computação, na Universidade Federal da Bahia (Ufba), tomava. Depois de três semestres, ele decidiu trocar não só de curso, mas de modalidade. Abandonou o presencial e se matriculou em uma faculdade particular com ensino à distância (EAD). A história do aluno de Salvador é representativa de um cenário que ganha cada vez mais fôlego na Bahia: matrículas em cursos EAD crescem quatro vezes mais do que no presencial.

Dados sobre o aumento da procura por graduações à distância foram revelados pelo Mapa do Ensino Superior no Brasil 2024, divulgado neste mês de maio. Entre 2021 e 2022, o número de matriculados em cursos EAD cresceu 24% na Bahia, chegando a 207.293. As graduações mais buscadas foram pedagogia e administração.

Apesar de o número de calouros naquele ano ainda ser maior nos cursos presenciais, 270.311, a quantidade de ingressantes baianos cresceu em uma escala muito inferior, de 6,1%. O levantamento foi feito pelo Instituto Semesp, que representa as mantenedoras de ensino superior do Brasil, a partir de dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

O aumento vertiginoso é resultado, principalmente, da maior oferta na rede privada. Entre 2020 e 2022, foram criadas 51.504 novas vagas à distância na Bahia em instituições particulares. Enquanto isso, houve diminuição na rede pública, com a redução de 1.078 vagas.

Desde 2006, o programa Universidade Aberta do Brasil (UAB), do governo federal, permite que universidades públicas ofertem cursos – a maioria de licenciatura – à distância no interior do estado.

A escolha de Raphael Souza foi motivada por alguns fatores. Além da insatisfação com o curso presencial, o tempo gasto com deslocamento ajudou a mudança para a modalidade mais flexível. “Levei em consideração a liberdade de poder estudar em qualquer lugar e não me prender a deslocamentos imensos que realizava todo dia. Tinha dias que ficava duas horas só para chegar na faculdade”, diz o jovem, que mora em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador.

Com a nova rotina, ficou mais fácil conciliar o estágio com os estudos, como acontece com boa parte dos alunos que optam pelo EAD. Quem explica é Natália Fregonesi, coordenadora de políticas educacionais do Instituto Todos pela Educação. “Eles costumam ser um pouco mais velhos, já trabalham e precisam de um curso mais flexível. Além disso, existe a questão das mensalidades mais baratas, que são atrativas para um público de baixa renda”, diz.

O interesse pelo ensino à distância já despontava entre baianos há, pelo menos, uma década. Em 2015, por exemplo, o número de alunos matriculados nesta modalidade era de 95,4 mil. Sete anos depois, em 2022, o aumento foi de 117%, atingindo o recorde de 207,2 mil. Na visão de especialistas, a pandemia intensificou esse processo.

“A partir da pandemia, pessoas que tinham uma certa resistência à educação à distância perceberam que é possível aprender, inclusive os professores. Nesse momento de pós-pandemia, há uma preferência por essa metodologia, especialmente para pessoas que moram longe dos centros urbanos”, analisa Eniel do Espírito Santo, professor e pesquisador de EAD e tecnologias digitais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

O pesquisador pontua que, além da flexibilidade, o ensino à distância ajuda na democratização do ensino superior. “Muitas pessoas acham que o EAD é mais fácil. Na verdade, ele requer um nível de autodisciplina maior dos estudantes do que o presencial”, completa.

Mas seria o ensino online uma opção para todos os cursos? Natália Fregonesi, do Instituto Todos pela Educação, pensa que não. Ela usa como exemplo os cursos de pedagogia e licenciatura – os mais buscados nessa modalidade na Bahia. “Não faz sentido um curso de formação de professores ser 100% à distância, porque ofício docente depende de uma ampla articulação entre teoria e prática, vivência em escolas e desenvolvimento de habilidades relacionais”, defende. Correio da Bahia