Há uma queda de braço entre o discurso da “nova política” e a nomeação da ex-prefeita de Cardeal da Silva, Maria Quitéria, para uma gerência na Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba). Aliada do governador Rui Costa (PT), Quitéria foi alçada ao cargo sob as bênçãos do vice-líder do governo, José Rocha (PR).

No entanto, o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, garantiu que ela não permaneceria no posto. O padrinho argumentou o oposto. Por mais que funcione como estratégia retórica, a ideia de que cargos não serão negociados politicamente não passa de um discurso vazio.

É impossível para qualquer governo – independente do posicionamento político-ideológico – trabalhar sem qualquer tipo de contrapartida para assegurar votos no Congresso Nacional. E, por mais que possam tratar o tema como imoral, uma das práticas mais antigas no relacionamento entre poderes está longe de acabar. Quitéria é apenas um exemplo público disso.

A ex-presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB) era uma candidata em potencial à Câmara dos Deputados ou à Assembleia Legislativa da Bahia. Um erro primário, de desincompatibilização, impediu que Quitéria estivesse disputando uma vaga nas urnas pelo Avante.

Porém era necessária uma compensação para esse potencial desperdiçado: um cargo de escalões mais baixos para não deixar uma pobre ex-prefeita desamparada – e cuja capacidade eleitoral a tornou até mesmo possível candidata em 2020.

Não é estranho que ela tenha encontrado esse lugar ao sol em um cargo federal, na cota reservada para indicações de congressistas. Era até natural, já que as alianças políticas não nasceram ontem e Quitéria sabe disso. No entanto, eles só não contavam que esse discurso virulento contra as práticas da “velha política” seria aplicado tão efetivamente.

Dificilmente Onyx Lorenzoni saberia que a indicada de José Rocha para a Codeba é aliada do petismo na Bahia e fez campanha para Fernando Haddad. Ao não passar despercebida, a nomeação da ex-prefeita precisava ser criticada antes de ser mantida.

Mesmo que a ex-dirigente da UPB seja defenestrada do posto, ela não deve ficar desamparada. Inclusive com cargos no plano federal. Como o governo de Jair Bolsonaro precisa de votos para projetos como a Reforma da Previdência, chegará o momento em que será preciso ceder para pleitos de deputados e senadores.

Quitéria será apenas um exemplo em um universo de milhares possíveis, razão pela qual não pode ser tratada como bode expiatório. Sob pena do governo ver naufragar qualquer possibilidade de relação civilizada com o Congresso Nacional.

O tal do “toma lá, dá cá” pode não ser explícito, mas nunca vai deixar de existir. O máximo que vai acontecer será o constrangimento de ter feito um discurso que não se aplica na prática. Porém, nesse ponto, não há muito o que se preocupar. Afinal, faz parte da política falar mais do que se faz, não é mesmo? (Fernando Duarte) Foto: Bahia Notícias