EC Bahia

Pouco mais de três meses após seu primeiro treinamento no CT Evaristo de Macedo, o técnico português Renato Paiva comemorou seu primeiro título pelo Bahia. Ao derrotar o Jacuipense por 3×0 neste domingo (2), diante de quase 50 mil espectadores na Fonte Nova, o tricolor cravou seu 50º troféu na história do Campeonato Baiano.

A taça chega em um momento de novas expectativas geradas pelo torcedor em cima do elenco que começou mal o ano, tendo tropeços no próprio Baianão e se despedindo cedo de Copa do Nordeste. Mesmo assim, Paiva elevou a moral do elenco tricolor após a conquista e ressaltou que o resultado em campo parte da sequência dada ao seu trabalho na beira do campo.

“No intervalo hoje pedi os jogadores o que já vinha pedindo há um tempo: paciência. O bloco [de marcação] do Jacuipense esteve mais baixo do que a gente esperava e os jogadores não tiveram paciência para girar a bola. Isso nos fez perder a bola algumas vezes, nos gerou intranquilidade. O que faltava era paciência para entender quando e onde entrar no bloco adversário. Nós não jogamos sozinhos, não há finais fáceis. As folhas salariais não jogam em campo. Se jogassem, o PSG ainda estava na Liga dos Campeões. É preciso respeitar os adversários. O meu colega montou muito bem a equipe dele, mas eu sentia que depois do primeiro gol os espaços iriam aparecer e foi o que aconteceu”, explicou o treinador.

Apesar da desconfiança de parte da torcida, a diretoria do tricolor manteve a posição de Paiva firma no comando técnico do clube. Na coletiva, o treinador enfatizou que a quantidade de mudanças no elenco do Bahia de uma temporada para a outra impacta na evolução do atual grupo. E aproveitou o momento para questionar do seu trabalho.

“Sempre fui um treinador de trabalho, de processos e de paciência. Não acredito no trabalho instantâneo no futebol, ainda mais com um elenco novo. Se eu tivesse chegado em clube como o Palmeiras, com a equipe feita, teria outra forma de ver o trabalho. Mas, aqui, tivemos que fazer um trabalho do zero. Não pelos trabalhos anteriores, mas aqui só ficaram cinco a seis jogadores da temporada passada. E chegaram jogadores aos poucos. Se em dezembro, logo depois do nosso primeiro treino, tivéssemos o elenco fechado, não teríamos tido vários resultados que tivemos. Não tenha a menor dúvida. Por isso pedimos para ir compondo o elenco”, começou o treinador.

Na sequência, analisou a cobrança que existe em cima dos profissionais de futebol. “Há uma uma exigência superlativa para uns profissionais do futebol. Mas eu estou de acordo com essa exigência, é necessária. Mas quem faz essa exigência? Se cada um fosse exigente consigo mesmo em seu dia a dia, com esse mesmo nível de exigência,  não haveria violência doméstica, roubos, delinquência, respeitávamos as pessoas, os animais, seriamos melhores profissionais. […] Não sou contra a exigência, mas sejamos todos um pouco mais exigentes consigo mesmo também”, continuou Renato Paiva.

Avaliação sobre as críticas ao trabalho

Diante do Jacuipense, Paiva também consolidou a formação tática com três zagueiros que vem adotando desde a reta final da primeira fase na Copa do Nordeste e que foi utilizada nas partidas decisivas do Baianão. Ao colocar em prática o modelo de jogo, recebeu críticas por ser “teimoso” em acertar o time. Na coletiva após o título, afirmou que não é contra as críticas que recebe, mas frisou que não vai mexer no elenco por pedidos da torcida.

“Jogam aqueles [jogadores] que entregam mais em treino e em jogo. Acho que sempre fui mal interpretado aqui, eu nunca fui contra ninguém que me criticou e não sou contra as críticas. Meu pai foi preso pela ditadura em Portugal porque escrevia contra ela. Se meu pai imaginasse que eu era contra crítica, jamais olharia em minha cara. Eu aceito uma crítica construtiva, eu não acerto sempre e nem sou perfeito. Sobre a questão da mudança do sistema tático, eu não posso ser considerado teimoso por não fazer o que as pessoas acham que eu poderia fazer. Porque, às vezes, as pessoas não têm razão”, disse Paiva.

“O momento decisivo para encontrar esse novo sistema foi quando tive os jogadores prontos para isso. No começo não tinha Kanu, Raul Gustavo, Gabriel Xavier… depois Kanu se lesionou,  André estava no Mundial e Jacaré era ponta. Eu raramente tive mais de quatro zagueiros [à disposição] para trabalhar essa formação”, completou. Correio da Bahia