“Mulher foi feita para dar respeito. Salve as mulheres”. O discurso proferido pelo vocalista da banda Psirico, Márcio Victor, no sábado (18) de Carnaval, tinha tudo para ser favorável às mulheres não fosse um detalhe. O cantor tinha uma boneca inflável, símbolo de objetificação feminina, pendurada no pescoço. A cena, à primeira vista contraditória, viralizou nas redes sociais e abriu uma janela para a discussão de como as mulheres são representadas nas festas populares.

Os três grandes hits do Carnaval de Salvador deste ano possuem mais do que a batida envolvente em comum. “Zona de Perigo”, de Léo Santana, “Deixa Eu Botar Meu Boneco”, de Oh Polêmico, e “Carol”, de Escandurras, têm a mesma temática: figuras masculinas relatam como é fazer sexo com mulheres. No circuito, foliões de todos os gêneros fazem a dança da moda e a letra, por vezes, passa despercebida. Mas porque canções que objetificam mulheres continuam fazendo tanto sucesso?

Não dá para desassociar as produções culturais, seja no Carnaval ou fora dele, com o universo que envolve a violência de gênero. Quem explica é a cientista política e doutora em Estudos Feministas e de Gênero, Rebeca Sobral Freire. “Vale lembrar dos tipos de violência, como a moral e a psicológica, que envolvem como a imagem das mulheres é construída na sociedade. As músicas podem reproduzir a violência e a subjugação das mulheres”, afirma.

Na prática, artistas de peso lucram com músicas que contribuem para a imagem de mulheres como objetos sexuais – o que ficou ainda mais escancarado com uma boneca inflável que, levada por foliões, ganhou evidência em cima de um trio elétrico.

Se a violência de gênero possui várias nuances, uma das mais graves que marcou a folia deste ano foi a agressão de integrantes do Bloco As Muquiranas a uma mulher. A situação está registrada em um vídeo e a indignação foi tanta que uma petição online com mais de 400 assinaturas pede pelo fim da agremiação.

O peso, no entanto, não deve recair apenas aos artistas que sobem nos palcos e trios, como lembra a pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM/UFBA) e cantora, Marilda Santanna. Ela explica que há uma engrenagem de instituições que colaboram para que o machismo seja exaltado especialmente no Carnaval.

“Existe um conglomerado de instituições como o turismo, meio de comunicação de massa e a sociedade como um todo que reforça e aprova o consumo desses conteúdos”, diz.

Música
Para fazer uma música que faça sucesso, além da óbvia adesão do público, os artistas seguem caminhos já traçados. “Existem várias dicas de como fazer, pensar num refrão chiclete, um arranjo criativo, uma boa produção. Hoje em dia, com os challenges de dança, é preciso pensar também em uma boa coreografia”, explicou a produtora AnaGB em entrevista dada ao CORREIO antes do Carnaval.

A junção dos fatores listados é o que torna uma música praticamente irresistível aos ouvidos e à cintura do povo. Quando a canção envolvente é atravessada pelo machismo, dificilmente sofrerá obstáculos na sua disseminação.

“São letras cantadas e escritas por homens que vão ao encontro da cultura machista, dando sustentação aos valores constituídos como ‘masculinos’. Por se tratar de uma cultura, o machismo não escolhe morada e é reproduzido infelizmente”, analisa Bruna Jesus, pesquisadora do Feminaria Musical, grupo de pesquisa de experimentos sonoros que atua na linha de gênero e cultura.

Muito antes de O Kannalha cantar “Toma, toma só na pepequinha”, um grupo de mulheres já alertava que o machismo presente nas letras de músicas nacionais ultrapassa as barreiras de gênero musical. Longe de ser exclusividade do pagode baiano, músicas que objetificam as mulheres são feitas no axé, sertanejo e onde quer que haja instrumento e gente disposta a cantar – inclusive artistas femininas.

site MMPB – Música Machista Popular Brasileira, em clara referência ao gênero MPB, foi criado em 2018 com o intuito de explicar didaticamente porque certas letras de músicas são agressivas às mulheres. Basta clicar em “dá um shuffle”, expressão em inglês para embaralhar, para encontrar músicas como o funk “Lei do Retorno” e o sertanejo “Tá Rodada”. Nem Vinicius de Moraes, com sua música “Formosa” escapa das críticas.

Há 11 anos, a Lei Estadual 12.573/2012, conhecida como Antibaixaria, tentou impedir que recursos públicos fossem utilizados para contratar artistas que cantassem músicas que incentivassem a violência contra as mulheres. Na época, a lei foi sancionada pelo então governador Jaques Wagner (PT), mas nunca foi colocada em prática.

As críticas de que a lei serviria para caçar artistas do pagode baiano enquanto “passava pano” para outros gêneros musicais falaram mais alto e a fiscalização não foi adiante. Para as especialistas ouvidas na reportagem, é preciso balancear a proteção dos direitos humanos e a censura. Para isso, não há como fugir da necessidade de discutir relações de gênero em todas as camadas do tecido social.    “A gente precisa aprender a se divertir sem estar na base da violência das matrizes de opressão, seja o racismo, machismo ou transfobia”, sinaliza a cientista política Rebeca Sobral. Correio da Bahia