A Madre baiana Victória da Encarnação que morreu em 1715, há 304 anos, pode se tornar a próxima religiosa brasileira a ser considerada santa. Isso porque o processo de beatificação dela, aberto após pedido do Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, em 2016, terá continuidade este ano.

A Madre era conhecida por abdicar de qualquer bem material e conforto, além de ajudar os pobres, mesmo sem sair do mosteiro o qual vivia em clausura. O processo para beatificação estava parado, mas em 2019, as Clarissas de todo o Brasil, ordem a qual a Madre pertencia, resolveram assumir todo o processo de beatificação e já escolheram o postulador das causas de beatificação. Será o Frei Jociel Gomes, que é da ordem dos Capuchinhos e mora em Pernambuco.

“Agora estamos em contato com pessoas para contribuírem com a causa sendo membros da comissão histórica e também do tribunal eclesiástico que será instituído para citar pessoas que estudaram, que têm algum conhecimento relevante sobre a Madre. Ainda neste segundo semestre teremos, em Salvador, a sessão oficial de abertura da causa da Madre, mas ainda não tem data definida”, explicou o frei.

Os religiosos e estudiosos destacam a importância da pesquisa sobre a vida da Madre, pois muitas pessoas que relataram milagres atribuídos a ela já morreram. Além disso, o documento mais detalhado sobre a via dela é o livro publicado em 1720, “História da Vida e Morte da Madre Soror Victória da Encarnação”, de Dom Sebastião Monteiro da Vide, arcebispo da Bahia no século XVIII.

Local da Igreja de Santa Clara do Desterro aonde fica a imagem de Madre Victória da Encarnação, em Salvador — Foto: Maiana Belo/G1

O atual Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, contou que como já foi aberta a licença para que Madre Victória se torne serva de Deus – título que a Igreja Católica dá a uma pessoa cujo processo de beatificação foi oficialmente aberto – o processo agora é de levantar documentos referentes à Madre.

“A ordem das Clarissas me pediu para elas assumirem a causa, eu achei justo para elas, conhecer a vida dessa irmã. Primeiro passo é o estudo de historiadores para aumentar o conhecimento sobre ela”, disse o arcebispo.

O pedido para beatificação da Madre ocorre por conta da fama de santa que ela possui. Entre diversos motivos está o dom que Madre Victória tinha de sonhar com as pessoas necessitadas e mandar ajuda para elas.

“Ela sonhava e dizia para as pessoas, para a família dela quando vinha visita-la: ‘Vá em tal lugar porque lá tem uma pessoa doente, ou alguém que precisa de comida, de algum tipo de ajuda’. Quando a pessoa chegava lá, constatava que o que a Madre estava dizendo era verdade”, contou o seminarista Paulo Thadeu Santos, um estudioso da vida da Madre.

Conforme conta Thadeu, ela também tinha o dom de encontrar objetos e desaparecidos. “As freiras recorriam a ela [Madre Victória] para saber onde estavam os objetos. Quando tinha uma chave perdida, ela dizia: Vai que está lá em tal lugar. As freiras iam no lugar indicado e estava lá”, conta.

Entre outros milagres atribuídos à Madre Victória, Thadeu conta que uma freira se curou de tumores e outra religiosa que estava doente também se curou ao interceder por Madre Victória.

“Há relatos de que uma freira muito doente fez uma oração a ela e ficou curada. Também ocorreu de uma freira Clarissa, com tumores externos e internos na garganta pediu às irmãs [da igreja] que fossem pegar a terra da sepultura de Victória, passou na garganta e ficou curada”, contou.

São vários relatos de milagres atribuídos à Madre. Na cela do mosteiro onde ela morreu há um livro com pessoas que relatam graças alcançadas por intermédio de Madre Victória da Encarnação. O Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger explica como ficou sabendo da história de Madre Victória da Encarnação.

“Logo que eu cheguei aqui começaram a me contar que houve uma grande santa em Salvador cujo o processo está em Roma e não foi adiante. Comecei a me interessar, daí que pensei: ‘Será que existe mesmo o processo?’ Então eu escrevi para Roma: ‘Olha estou ouvindo essa notícia, essa irmã tem fama de santidade, mas eu não tenho nada a não ser um livro sobre ela escrito por Dom Sebastião’”, contou Dom Murilo.

O Arcebispo detalhou que a Santa Fé [grupo do Vaticano que avalia os pedidos] respondeu a ele dizendo que não havia nenhum processo de canonização. Porém, mesmo assim, pediu que Dom Murilo consultasse os franciscanos que cuidam das causas de alguém que foi de uma ordem ou congregação franciscana. Os franciscanos, por sua vez, também disseram que não tinham nada sobre ela.

“Escrevi para a congregação franciscana, pedindo a possibilidade de abrir o processo para examinar a vida dela, dada a fama que ela tem aqui [em Salvador], ainda, apesar de 300 anos da sua morte”, concluiu Dom Murilo. Os milagres da Madre que serão analisados pelo Vaticano não são anunciados até que todos os relatos sejam analisados pela equipe em Roma.

Caso o processo seja aceito, Madre Victória será a segunda baiana a ser canonizada. A primeira é Irmã Dulce, que vai se tornar santa em outubro deste ano. Inclusive, alguns estudiosos contam que Madre Victória da Encarnação foi inspiração para a vida religiosa de Irmã Dulce, conforme conta o seminarista Paulo Thadeu.

“Dizem que Irmã Dulce quando ainda era adolescente batia aqui [no mosteiro] e pedia para entrar para a Ordem das Clarissas, mas as freiras não aceitavam ela por conta da idade. Na época da Madre Victória, era comum meninas de 13 e 14 anos por aqui, mas isso há muitos anos”, explicou. G1

Livro onde estão os relatos de pessoas que foram agraciadas com os milagres da Madre Victória da Encarnação, em Salvador — Foto: Maiana Belo/G1

Fotos: Maiana Belo/G1