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Quando manchas vermelhas surgiram por todo o corpo de Thereza Lopes, com então 4 anos, a mãe dela se desesperou e levou a criança ao pediatra. Na avaliação clínica, ele constatou que a menina estava com sarampo. “A partir dali foi uma coisa horrorosa. Tive um mal-estar absurdo, uma suadeira, a febre alta, dor no corpo. Fiquei prostrada dentro do quarto no escuro, porque meus olhos doíam”, conta a empresária, hoje com 58 anos.

Diagnósticos como o de Lopes se tornaram raros no Brasil nos últimos 30 anos. Tanto é que em 2024, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o país novamente livre da circulação do sarampo. O marco havia sindo alcançado pela primeira vez em 2016, no entanto, a certificação foi revogada em 2019, quando o país registrou um surto de mais de 21,7 mil casos ao longo de 12 meses. Até agora neste ano, o Brasil registrou três casos da doença, e investiga 468 suspeitas, segundo o Ministério da Saúde.

Em nota técnica, o diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do ministério, Eder Gatti, afirmou recentemente que o país está sob “risco iminente” de reintrodução da doença. Um dos fatores que reforçam a ameaça é a alta dos casos de sarampo nas Américas.

Os três países que vão receber a Copa do Mundo de futebol – Estados Unidos, Canadá e México – concentraram 67% das infecções do continente em 2025, segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Esse cenário representa um risco para turistas que viajarão para acompanhar os jogos.

“Isso é grave e gera preocupação porque mesmo os países com uma cobertura vacinal adequada, como o Brasil, estão sob risco de ter um respingo dessa situação que está fora de controle no mundo, inclusive em países desenvolvidos”, avalia o infectologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Alberto Chebabo.

A melhor prevenção

No Brasil, a cobertura vacinal em 2025 para o sarampo foi de 92,66% para a 1ª dose e 78,02% para o reforço. “O impacto da entrada do vírus é reduzido porque temos uma alta imunidade da população; isso freia a disseminação”, pondera a chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais do Instituto Oswaldo Cruz, Marilda Siqueira.

“No entanto, se trata de um vírus altamente contagioso, que vai encontrar quem não está imunizado. Então, a melhor alternativa é se vacinar”, acrescenta.

Essa é, aliás, a recomendação do Ministério da Saúde para quem pretende viajar para acompanhar a Copa: tomar a tríplice viral pelo menos 15 dias antes da viagem. Os pais podem ainda adiantar a aplicação das doses de vacina das crianças a partir de 6 meses que forem viajar para áreas endêmicas. Quem já teve a doença não precisa tomar uma nova dose, pois está protegido para toda a vida.

A vacina contra o sarampo é produzida a partir do vírus vivo atenuado. O imunizante estimula o corpo a reconhecer o vírus e a desenvolver anticorpos para a doença. O Ministério da Saúde adotou a estratégia em 1968, antes da criação do PNI. Na época, porém, não havia uma coordenação na distribuição das doses.

A vacina só se tornou uma medida de controle 20 anos depois, quando passou a ser distribuída a todos os postos de saúde. Em 1997, depois de um surto que resultou em mais de 50 mil crianças infectadas, o protocolo foi atualizado: o esquema vacinal passou a ser em duas doses e o público-alvo foi expandido.

Com isso, os contágios que somavam 61,4 mil em 1990, com 478 mortes, caíram para um caso em 2001, ano em que não foram registrados mais casos autóctones de sarampo, apenas importados de outros países.

Atualmente, o calendário prevê a aplicação da primeira dose da tríplice viral, que inclui o imunizante do sarampo, rubéola e caxumba, para crianças de 12 meses, com um reforço aos 15 meses. Adultos até 29 anos que não completaram o esquema podem tomar até duas doses. Entre 30 e 59 anos, quem não sabe se tomou a vacina ou se já teve a doença recebe apenas uma dose. Para os idosos a partir dos 60, a vacina já não é mais aplicada, pois provavelmente tiveram sarampo. G1