A sequência é quase um roteiro: meses de sintomas que ninguém associa ao pâncreas, um sinal inequívoco que só chega tarde, e então a pressa. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) projeta mais de 13 mil novos casos de câncer de pâncreas por ano no Brasil entre 2026 e 2028 —pouco mais de 1% de todos os diagnósticos oncológicos do país, mas 5% das mortes por câncer.

Nos Estados Unidos, onde as séries de sobrevida são mais consolidadas, o levantamento SEER, do National Cancer Institute, aponta que 12,8% dos pacientes chegam vivos ao quinto ano após o diagnóstico. Quando o tumor é encontrado antes de se espalhar, o índice sobe para 44%. Quando já há metástase, cai para 3%. A distância entre 44% e 3% é o argumento inteiro. E é justamente ela que a medicina não consegue encurtar no pâncreas.

Um órgão que se esconde

O pâncreas ocupa uma posição privilegiada para passar despercebido. Fica entre a coluna e o estômago, cercado pelos principais vasos do abdome. “Essa vizinhança, que deveria funcionar como proteção, atua contra o paciente: o tumor alcança as veias e as artérias em pouco tempo e se dissemina antes de dar qualquer sinal”, explica Marcos Belotto, cirurgião do Centro Oncológico do Hospital Nove de Julho.

A consequência aparece na estatística: menos de 30% dos pacientes chegam ao diagnóstico em condições de serem operados —e a cirurgia segue sendo o único tratamento com potencial de cura. Para os demais, o objetivo muda de natureza. Deixa de ser retirar o tumor e passa a ser controlá-lo, com quimioterapia e, mais recentemente, com terapias dirigidas às alterações genéticas que o impulsionam. A localização do tumor determina o tipo de aviso que o corpo dá.

  • Quando cresce na cabeça do pâncreas, ele comprime a via biliar e provoca icterícia.
  • Quando aparece no corpo ou na cauda, produz dor nas costas e dificuldade para comer, porque invade o estômago.

“Uma parte considerável dos diagnósticos nasce de uma investigação que começou em outro lugar”, diz Belotto.

Sintomas que servem para tudo

Antes da icterícia, quase sempre há meses de sinais que não apontam para lugar nenhum. Cerca de 80% dos pacientes têm dor ou desconforto abdominal em algum momento; 85% perdem peso; entre 50% e 60% relatam falta de apetite e cansaço. “O problema não está na intensidade desses sintomas, e sim na inespecificidade deles”, afirma Stephen Stefani, oncologista do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation.

“Dor abdominal, cansaço e perda de apetite cabem em dezenas de diagnósticos mais prováveis, e é para esses que médico e paciente olham primeiro. Ninguém que acorda cansado desconfia que tem câncer de pâncreas.” Há ainda uma distorção de memória que embaralha a reconstrução do caso depois. “O primeiro sintoma que o paciente identifica quase nunca é o primeiro que ele teve”, observa Stefani.

“Se a pergunta for genérica, a resposta é que não havia nada. Se você ancorar em uma data, o Natal ou o aniversário, família e paciente começam a reconstituir sinais de meses antes.” A icterícia costuma ser o sinal que finalmente leva o paciente ao consultório —e ela não vem sozinha. Stefani descreve o mecanismo: a bile é produzida no fígado e percorre um conduto, o colédoco, que atravessa o pâncreas antes de desembocar no intestino. G1