Como se as grades não fossem um limite, presos seguem articulando o tráfico de drogas, homicídios e sequestros de dentro de presídios na Bahia. Não é novidade nem surpresa diante de um sistema em que unidades sequer têm monitoramento oficial por câmeras e chegam a operar com a proporção de um agente para 300 presos. Casos como o assassinato da adolescente Thamires e o sequestro de uma mãe e suas filhas em um shopping de Salvador são exemplos recentes de uma engrenagem que continua funcionando de dentro das celas. Mas quantos crimes nascem dessas ordens, ninguém sabe. O dado simplesmente não existe. Nem no estado, nem em bases nacionais, nem em levantamentos independentes.
A reportagem da BNews Premium tentou iniciar este texto dimensionando o problema, com a informação de quantos crimes aconteceram por ordens dadas de dentro de presídios baianos. Buscou a Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Tribunal de Justiça da Bahia, o Ministério Público (MP-BA), a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap-BA) e Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP-BA), por meio da Polícia Civil. Acionou o governo do estado, inclusive, via Lei de Acesso à Informação. Mas a resposta foi sempre a mesma: não existe esse dado.
Quase tão preocupante quanto a denúncia é o apagão de dados, mesmo diante de tantas investigações expondo o problema. O caso Thamires, o sequestro no shopping e ainda o sequestro de uma jovem cujo tio recebeu um prêmio na Mega Sena não foram casos isolados. São parte de uma lista de crimes que nasceram de ordens vindas de presídios baianos nos últimos meses. Nesta relação, estão ainda ações dos comandos do tráfico em Laje, Juazeiro, Senhor do Bonfim e Serrinha, todos desarticulados nos últimos dias após a investigação apontar que as lideranças continuavam em atividade mesmo presas.
Ainda assim, o mais próximo que se tem do número oficial de crimes que saíram de presídios baianos é a quantidade de mandados cumpridos dentro deles: foram 93 somente nos primeiros quatro meses do ano, quase um por dia. O dado, claro, não reflete especificamente a quantidade de ordens que aconteceram atrás das grades neste período, porque muitas das ações podem não ter ainda demandado um mandado, assim como alguns dos crimes relacionados podem ter acontecido antes da prisão.
O fato é que o tamanho exato do problema é desconhecido, mas as consequências não. Especialistas ouvidos pela BNews Premium são unânimes: a fragilidade do sistema prisional baiano não só leva a uma falha no combate ao crime organizado, como também contribui para a estruturação e expansão desses grupos.
Bunker do crime
Titular da Vara de Organizações Criminosas da comarca de Salvador, o juiz Waldir Viana Ribeiro Júnior faz uma análise histórica e mais profunda do problema. Ele atribui parte do poder que as facções têm hoje no país à “desestruturação crônica” do sistema prisional. Ele não tem dúvida de que presídios perderam a relevância no combate ao crime organizado. Porque não adianta a Justiça prender se a Secretaria de Administração Penitenciária não vai evitar que os crimes continuem acontecendo.
O Estado exercia o controle da muralha para dentro, mas perdeu o controle da população carcerária e permitiu que, durante muito tempo, os presídios se tornassem o bunker das organizações criminosas, onde elas pudessem se organizar, estruturar para exercer, num segundo momento, domínio fora do sistema prisional”, explicou o juiz à BNews Premium. Essa “perda de controle” não é por acaso. Na Bahia, ela vem sustentada em falhas estruturais que se arrastam no próprio sistema prisional baiano. Bocão News/por Mariana Bamberg

















