A ostentação nas redes sociais, os carros de luxo, as viagens internacionais e a imagem pública de sucesso construída por Deolane Bezerra ajudaram a criar um “cenário fértil” para ocultar dinheiro do crime organizado e dar aparência de legalidade a recursos ilícitos atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC), aponta um relatório da Polícia Civil de São Paulo que levou à prisão da influenciadora na quinta-feira (21).
O inquérito sustenta que a exposição pública e o padrão de vida milionário de Deolane teriam servido, na prática, como uma espécie de blindagem para movimentações financeiras consideradas suspeitas pelos investigadores. O relatório afirma que Deolane “empresta toda a sua estrutura financeira e aparente respeitabilidade social para o trânsito e integração de valores ilícitos”.
A investigação começou há sete anos e mira integrantes da cúpula do PCC, entre eles Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder máximo da facção. Segundo a polícia, Deolane teria atuado como uma espécie de “caixa” da organização, recebendo valores em contas pessoais e empresariais, misturando os recursos com receitas legais e devolvendo quantias ao grupo criminoso para dificultar o rastreamento do dinheiro.
“Deolane, pessoa pública e de destaque nas redes sociais, reverbera a imagem de profissional de sucesso e evidente ostentação financeira o que, em tese, justificaria a movimentação de vultosos valores, criando um fértil cenário para a dissimulação da real origem dos recursos movimentados em seu nome”, diz trecho do documento.
Para os investigadores, o modelo de exposição adotado pela influenciadora normalizava transações milionárias, contexto que dificulta identificar quais recursos teriam origem em contratos, publicidade e negócios lícitos e quais poderiam estar relacionados ao esquema investigado.
A defesa de Deolane Bezerra nega as acusações e afirma que a influenciadora não integra organização criminosa nem praticou lavagem de dinheiro. O advogado tributarista Marcelo John, do escritório Benedito Torres Advogados, destaca que, sob a perspectiva tributária e financeira, a tese levantada pelas autoridades é plausível:
“O mercado de publicidade que envolve influenciadores e pessoas públicas é extremamente volátil, de modo que é difícil estabelecer um parâmetro completamente seguro para definir quanto vale uma campanha publicitária. Essa circunstância pode permitir que contratos publicitários sejam utilizados como mecanismo para mascarar transações indevidas, já que valores muito elevados podem ser formalmente justificados sob a roupagem de uma única campanha, publicidade ou cessão de imagem”.
Para ele, é necessário fazer o cruzamento de dados para rastrear a legalidade da transação. “A análise sobre a regularidade dessas movimentações financeiras não pode se limitar ao valor nominal movimentado. É necessário cruzar contratos, notas, informes de rendimento, declarações de imposto de renda, movimentação bancária, patrimônio adquirido e capacidade operacional das empresas e pessoas envolvidas”, completou. G1

















