Foto: Martin Büdenbender para Pixabay

A diabetes danifica corações, rins e vasos sanguíneos de milhões de brasileiros antes mesmo de dar qualquer sinal ao corpo. Embora seja vista como uma doença ligada apenas ao açúcar, o problema é muito mais amplo: trata-se de uma condição metabólica crônica que altera a forma como o organismo utiliza a glicose –combustível essencial para as células.

Quando a glicose permanece alta por muito tempo, ela se comporta como um agente tóxico, capaz de desencadear inflamação, desgastar artérias e comprometer órgãos vitais. Esse processo começa de maneira lenta e silenciosa, mas tem consequências graves. Estudos mostram que a doença dobra ou até quadruplica o risco de infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC) e já atinge 1 em cada 13 pessoas no país –muitas delas sem diagnóstico.

Segundo o Atlas Global da Federação Internacional de Diabetes, o mundo soma hoje 589 milhões de adultos com a condição. O Brasil ocupa a 6ª posição mundial, com mais de 16 milhões de pessoas afetadas. Só em 2024, 111 mil brasileiros morreram em decorrência da doença.

Como a doença age no corpo

O perigo da diabetes tem a ver com o que a doença faz dentro das artérias —e não apenas com o aumento da glicose no exame de sangue. O excesso crônico de açúcar causa microfissuras, inflamação e acúmulo de gordura nas paredes dos vasos, alterando sua estrutura ao longo dos anos. O cirurgião cardiovascular Ricardo Katayose, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, detalha:

“A glicose muito elevada desencadeia inflamação e estresse oxidativo. Essa agressão machuca o endotélio, a camada interna do vaso, e facilita a formação de placas de gordura –a chamada aterosclerose. Por isso a diabetes pode dobrar ou até quadruplicar o risco de infarto e AVC. Essas placas se desenvolvem de forma silenciosa.

“O paciente pode estar caminhando, trabalhando, vivendo normalmente e, ainda assim, já ter uma obstrução importante se formando”, diz Katayose. O mesmo mecanismo atinge outros sistemas: rins, levando à insuficiência renal; olhos, com risco de retinopatia e perda de visão; e nervos periféricos, o que favorece feridas que não cicatrizam e até amputações.

Um país que envelhece, engorda e adoece mais cedo

Na sexta posição entre os países com mais casos de diabetes no mundo, o Brasil está à frente de nações muito mais populosas. Endocrinologista do Hospital Sírio-Libanês, Cláudia Cozer Kalil resume o principal motor desse índice: a mudança no estilo de vida nas últimas décadas –mais ultraprocessados, refeições rápidas, sedentarismo e noites mal dormidas– está empurrando a doença para faixas etárias cada vez mais jovens. Já há adolescentes chegando aos consultórios com diagnóstico de pré-diabetes. “Cerca de 80% dos casos de diabetes tipo 2 estão ligados ao acúmulo de gordura abdominal. É essa gordura na região central do corpo que atrapalha o funcionamento da insulina.”

Tipo 1 x tipo 2: trajetórias diferentes, riscos semelhantes

Embora esse fenômeno esteja por trás da maior parte dos casos no país, nem toda diabetes tem a mesma origem. O endocrinologista Augusto Santomauro Junior, da Beneficência Portuguesa e da Faculdade de Medicina do ABC, explica que as duas formas mais comuns — tipo 1 e tipo 2 — seguem caminhos muito diferentes, mas podem chegar às mesmas complicações. Ele descreve o mecanismo de forma didática:

“A insulina é a chave que coloca a glicose dentro das células. No tipo 1, essa chave simplesmente desaparece –o corpo para de produzir insulina. No tipo 2, a chave até existe, mas a fechadura emperra: o corpo não responde à insulina como deveria.”
Antes da década de 1920, quando a insulina foi usada pela primeira vez em humanos, o tipo 1 era praticamente uma sentença de morte para crianças e adolescentes. “A insulina transformou uma sentença de morte em uma condição crônica tratável”, relembra Santomauro. Hoje, porém, é o tipo 2 –o mais influenciado pelo estilo de vida– que domina as estatísticas de internações, complicações cardiovasculares e mortes.

A nova virada: medicamentos mudam o metabolismo

A última década trouxe uma mudança profunda no tratamento da diabetes tipo 2 com a chegada dos análogos de GLP-1 e dos inibidores de SGLT-2 —as chamadas canetas emagrecedoras, remédios inicialmente conhecidos pela perda de peso, mas que têm efeitos muito mais amplos. O cirurgião cardiovascular Ricardo Katayose relata o que observa na prática:

“O que venho vendo no consultório é que as pessoas chegam para um exame de rotina com a parte metabólica muito mais controlada. A glicemia cai, a hemoglobina glicada melhora, a pressão fica mais fácil de manejar. Isso aparece claramente no dia a dia.” Além da prática, explica a endocrinologista e fundadora da Clínica Viver Bem Mais, Lyz Helena Lopes, há comprovação científica:

“Essas medicações diminuem de forma consistente infarto, AVC e morte cardíaca. Isso já está muito bem demonstrado em estudos de desfechos maiores.” A grande dúvida, agora, é a proteção a longo prazo –especialmente em pacientes que, com o tempo, tendem a desenvolver perda de função renal e cardíaca.

“Precisamos entender melhor o impacto daqui a 10, 15 anos. A pergunta é: essas drogas conseguem tirar o paciente da curva de declínio típico da diabetes? Esse é o próximo passo da ciência”, diz Katayose. Para o endocrinologista Clayton Luiz Dornelles Macedo, do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto Cohen, essas terapias têm potencial revolucionário:

“Esses medicamentos imitam hormônios intestinais que aumentam a liberação de insulina, reduzem fome, diminuem glucagon e retardam o esvaziamento gástrico. Não são remédios ‘para emagrecer’, são terapias metabólicas completas, com impacto em coração, rins e longevidade.” Segundo ele, é a inovação mais importante desde a descoberta da insulina. G1