Foto: Marcello Casal/ Agência Brasil

Um estudo publicado na revista científica “Ciência & Saúde Coletiva” revelou que pessoas negras têm até 2,3 vezes mais risco de morrer por homicídio do que pessoas brancas no Brasil. A pesquisa, conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), utilizou a escala de propensão, método estatístico que permite a comparação de indivíduos com as mesmas características de idade, sexo e local de moradia, isolando a cor da pele como fator de risco independente para a morte violenta.

“O estudo comparou dois grupos de pessoas e, ao controlar fatores como escolaridade, local de moradia e estado civil, buscou isolar a cor da pele como a única diferença entre eles, o que permite afirmar que a morte violenta está relacionada à cor da pele”, explica o médico Rildo Pinto, autor da pesquisa e formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).

As informações analisadas no estudo foram obtidas no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), disponível no Portal Brasileiro de Dados Abertos, com dados referentes ao ano de 2022. Já as informações populacionais — com os recortes por sexo, idade, cor e municípios — foram extraídas do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O estudo analisou diferenças regionais e raciais nos homicídios no Brasil a partir do uso de técnicas geoestatísticas e da escala de propensão. Na análise espacial, os pesquisadores utilizaram os conceitos de hot spots (áreas com concentração estatisticamente elevada de homicídios) e cold spots (regiões com taxas de violência significativamente menores) para identificar grupos de municípios com padrões semelhantes de ocorrência de mortes violentas no país.

Os resultados apontam uma concentração mais intensa da violência na região Nordeste, enquanto municípios das regiões Sul e Sudeste apresentam, em geral, menores índices de homicídios.

De acordo com os dados de 2022 analisados, o perfil predominante das vítimas é formado por homens jovens, negros, solteiros e com baixa escolaridade. Nas áreas classificadas como de alta violência (hot spots), 9 em cada 10 pessoas mortas são pretas ou pardas.

Uma área localizada entre os estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte chamou a atenção dos pesquisadores por não apresentar dados estatísticos claros, apesar de estar cercada por municípios com altos índices de violência. Segundo Rildo Pinto, uma das hipóteses para essa lacuna é a subnotificação de óbitos, conhecida como homicídio oculto, que não foi incluída no estudo.

“Isso pode fazer com que a mortalidade pareça menor do que realmente é e precisa ser avaliado em pesquisas futuras. No nosso trabalho, a comparação entre regiões violentas (hot spots) e menos violentas (cold spots) foi usada como controle, e em ambas os negros morrem mais”, afirma. G1