A história do auditor fiscal que tirou a própria vida após contrair uma dívida milionária por vício em apostas não é um caso isolado. O problema é reconhecido como questão de saúde pública e, ao menos em Salvador, pessoas têm recorrido à inteligência artificial para pedir ajuda.
Um grupo de apoio a pessoas com vício em jogos na cidade registrou aumento no número de frequentadores devido ao uso da IA. De acordo com um dos membros, que não quis ser identificado, pessoas passaram a procurar ajuda no “Jogadores Anônimos” após receberem indicações do ChatGPT.
O grupo de apoio existe há quase duas décadas e tem reuniões semanais no bairro da Pituba. Há também reuniões online, onde pessoas de todo o Brasil podem participar e dividir as suas experiências.
“Atualmente, o principal meio que indica os Jogadores Anônimos é o ChatGPT. No desespero, depois de tentar várias alternativas, a pessoa costuma perguntar para o chat o que fazer”, diz o integrante.
O grupo de apoio não possui dados consolidados sobre o aumento da demanda, nem sobre as indicações feitas pela inteligência artificial. Ainda assim, segundo o membro entrevistado pelo g1, que participa dos encontros há quatro anos, o perfil das pessoas atendidas mudou significativamente nesse período.
“Eu joguei por 15 anos e, quando comecei a frequentar as reuniões, o grupo era formado por pessoas mais velhas que jogavam no bingo, na maquininha. Agora pulverizou bastante, com pessoas cada vez mais novas”, relatou.
De acordo com ele, atualmente as reuniões presenciais costumam ter entre 30 e 40 pessoas — número esse que já foi de até 10 frequentadores. Os perfis são os mais variados: homens e mulheres de todas as idades, com diferentes tipos de vícios em jogos.
Apesar de ser importante para trocar apoio e experiências, o grupo de apoio não substitui o atendimento especializado de saúde, feito com psicólogo e psiquiatra.
De acordo com o psicólogo Erich Rapold, especialista em Terapia Comportamental Clínica, o profissional vai ajudar o paciente a entender de onde vem o vício e como construir mecanismos para superá-lo. Além disso, no tratamento é prestado apoio à família, que geralmente é impactada emocional, psicológica e financeiramente pela ludopatia.
⚠️ A ludopatia é um transtorno caracterizado pelo desejo incontrolável e compulsivo de apostar. É uma dependência comportamental similar ao vício em substâncias, reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e com alto impacto na saúde mental.
Sintomas
O psicólogo classifica o transtorno como um “vício silencioso”, pois, diferente do vício em álcool ou em drogas, os jogos não costumam deixar vestígios físicos aparentes.
Ainda assim, alguns sinais podem ser notados por familiares e amigos, como o uso exagerado do celular e os pedidos de empréstimos financeiros sem justificativas claras.
Para o ludopata, também pode ser difícil identificar se as apostas são, de fato, um vício. “As apostas são tidas como um entretenimento legal, ao alcance de qualquer um. O ludopata pode olhar para as outras pessoas e pensar: ‘se todo mundo que aposta está bem, então o problema sou eu'”, explicou o psicólogo.
Além disso, segundo Rapold, o que difere o hábito do transtorno é a função que a aposta tem na vida da pessoa. Uma das formas dos jogadores autoavaliarem se as apostas se tornaram um problema, é fazer as seguintes perguntas para si mesmo:
- você aposta valores cada vez mais altos para sentir a mesma emoção que sentia quando começou a apostar?
- você fica irritado, ansioso ou inquieto quando tenta parar?
- você aposta para fugir de problemas ou aliviar a ansiedade?
- depois de perder, você volta a apostar tentando recuperar o prejuízo?
- você já mentiu sobre quanto ganhou ou perdeu?
- você já comprometeu dinheiro que tinha outra finalidade para apostar?
- a aposta já prejudicou o trabalho e/ou os estudos?
De acordo com o psicólogo, quando o jogador se encaixa em pelo menos quatro dessas situações, no período de um ano, é considerado transtorno. Nessas casos, o ideal é buscar tratamento. G1


















